segunda-feira, janeiro 13, 2014
sexta-feira, janeiro 10, 2014
[O Homem da Maratona] RUMO AO TRAIL - SEMANA 14: RESUMINDO E BARALHANDO... - 2007
Em 2007 andava eu chateado com os meus "pouco saudáveis 85 kg". Sete anos depois será que vale a pena chatear-me com os meus "pouco saudáveis 90 kg"?! Bah, pevides... :-)
No ano passado a propósito dos 20km de Cascais escrevi aqui no blog:Cascais é um excelente local para a realização de eventos desportivos. A paisagem urbana da vila enquadrada por um mar a perder de vista é de facto fabulosa. A estrada para o Guincho, a Serra de Sintra ao fundo e um cheiro peculiar (e único), fazem-me vibrar os sentidos de prazer. Subscrevo novamente o que disse então, é um prazer sempre renovado regressar a este espaço. Mais á frente no mesmo texto acrescentava: Quanto a esta prova, continuo a achá-la de boa qualidade organizativa, com muita participação ( sobretudo com muitas caras bonitas). O tempo foi o pior que ali fiz em todas as participações, mas depois de algum tempo parado e de algumas "caliqueiras" que persistem, vento forte e uns poucos saudáveis 85kg, até que não foi nada mau. Não é que qualquer semelhança com o ano de 2006 é pura realidade! Bem não é bem assim, apesar das semelhanças houve coisas diferentes é certo, a começar...
A caminho de Cascais engano-me ao querer virar no acesso Caxias - marginal e entro na CREL. Comento com o meu filho "bolas já me enganei, mais há frente devia haver uma mudança de direcção", o que há é afinal (mais) uma portagem (infelizmente não estou a conduzir numa estrada espanhola, estou em Portugal, carago)! Estava fulo e não disse "bom-dia" ao portageiro, reconhecendo nesta atitude falta de educação, mas, ou eu tinha mesmo cara de poucos amigos, ar de mau pagador, contestatário das portagens na ponte 25 de Abril ou a Brisa só ensina os seus funcionários a estender a mão, da boca do senhor não ouvi nem um gentil "obrigado". Ultrapassado este "obstáculo", felizmente para mim nada é estranho nos "arrabaldes" de Lisboa, sigo pelo IC19 até Sintra, depois Autódromo do Estoril, Birre e finalmente Cascais ( sem portagens, aleluia!) .Estamos atrasados, estaciono o carro, equipamo-nos à pressa e "voamos" para o local da partida onde levanto o dorsal para os 5km do meu Jonnhy Bravo. Depois procuro caras conhecidas, as primeiras que encontro são as da minha sempre grande família "Lebres do Sado" que me dão o dorsal para os 20km ( obrigado Paulo Mota) depois o Vítor Silva e a sua simpática família e outros conhecidos a quem distribuo olás e cumprimentos entre eles a minha amigável colega “blogger” Lénia Gamito ( desculpa não termos conversado muito mas existirão outras oportunidades para o fazer nas calmas, quem sabe à mesa com outros camaradas de corrida e de bloguiçes). O meu filho lembra-me que temos de aquecer, um aquecimento que fazemos demasiado rápido pois já se fazia tarde para alinhar na partida segundo as palavras do "speaker" que chama os atletas. Entro quase na cauda do "magote" de atletas ( havia mais este ano?) e aí estava eu para, se não estou em erro, correr os meus 6ºs ( ou 7ºs não sei ao certo) 20km de Cascais!
Comecei em bom ritmo e ao quilómetro dois juntam-se a mim o António Soares, também apelidado de "Lass Viren" ( qualquer semelhança é pura coincidência) e o Vítor Silva, que estavam como eu costumo dizer, "afinadinhos". Fizemos um trio até cerca dos 6km, altura em que o Vítor mais prudente decidiu reduzir o andamento, enquanto eu continuo com o Lass Viren que depressa me deu a entender que a maratona de Sevilha que fizera na semana anterior não o tinha "beliscado". Mantivemos assim um ritmo vivo e solto ao ponto de arrastarmos vários atletas e formar um excelente pelotão. Aos 10km sentia-me muito bem e pensei que ía melhorar o tempo do ano passado pois se conseguisse manter este andamento até final chegaria com um tempo entre as 1.26 - 1.30. Entre os 10.5km e o retorno aos 12.5km o vento estava mais forte, devia ter-me resguardado na retaguarda do pelotão, não o fiz e passado 1km do retorno o grupo começa a fragmentar-se com os puxões dos mais "frescos", eu (re)colei, descolei, tentei outra vez colar-me ao grupo e nesta última tentativa ´desesperada fico "pregado ao chão", o Soares lá seguiu com quem se aguentou. Fico sozinho, menos moralizado e começo a ser ultrapassado por alguns atletas mas também ultrapasso outros que deviam estar a pagar pela mesma luta que contra o vento.
Já eu tinha colado os olhos ao chão, sinal que sofria. O primeiro sintoma: as pernas que pareciam trapos,! Segundo e o pior: um ardor terrível na arcada dos pés que foi piorando quilómetro a quilómetro e do qual resultaram duas enormes bolhas de sangue da minha interminável "novela podológica". A arrastar-me até à meta ainda oiço um incentivo da Lénia ao quem respondo, penso eu, um pouco "au relanti". Perto do final, uma ultrapassagem pela direita do camarada forunista Fernando Andrade ( assim não vale), que em grande estilo de trás para a frente numa passada demolidora diz "olá Zen", o mesmo que dizer " o que é que estás aí a fazer parado"? Eu ainda me tento justificar "não posso com uma gata pelo rabo camarada", ele sorriu, eu já não tinha muita vontade para isso e vi-o distanciar-se cada vez mais. Cortei meta com 1.34 ( pior que no ano passado em 2m), fim, finito, finish, o meu filhote dá-me um beijo de parabéns, está feliz eu fico feliz.
Resumindo e baralhando, com 14 semanas de treino para uma prova de 148km e a 68 dias do começo desta, estou muito longe da forma adequada para participar em tão grande empreendimento. O próximo mês ditará um veredicto!
Posted By Zen to O Homem da Maratona at 2/19/2007 05:33:00 AM
quinta-feira, janeiro 09, 2014
[O Homem da Maratona] AS PERGUNTAS... - 2007
"Up and down" a vida é um carrossel ;-)! Em 2007 continuava a comprar bilhetes ( como, e felizmente, no presente)...
Acordei a pensar que me falta qualquer coisa de outros tempos. Dos tempos em que acordava às 6h da manhã para treinar fizesse sol, chuva, vento, frio ou calor. Dos tempos em que em Fevereiro ainda com a maioria dos mortais a bater o dente ia nadar para a Lagoa de Albufeira, dos "tais" em que cumpria quase “religiosamente” a fórmula 2x3x3 (dois treinos de natação, três corrida, três ciclismo) e me sentia capaz de enfrentar qualquer desafio desportivo da época com confiança. Dos "idos", em que comprava revistas, consumia livros da especialidade, pedia ou fazia planos de treino ( atenção que não possuo habilitações para tal, apenas para delinear os aspectos gerais do treino), fazia uma alimentação mais cuidada com idas regulares ao médico e por ai fora... Desde que fiz paragens mais longas (por diversos motivos mas nenhuma delas agora à distância do tempo me parece suficientemente plausível que justificasse tamanha inactividade) é que comecei a ter mais lesões e problemas de saúde frequentes. Até aí, uma lesãozita tratada a gelo ou um crise alérgica na Primavera e pouco mais! Algum cansaço é certo, períodos de maior e menor motivação ou impedimento, mas nunca como de 2003 para cá. A partir desse ano, reconhecendo que o PDI pode ter também alguma influência ( 37 anos), nunca mais fui o mesmo. Falta-me agora e por isso, mais que tempo, saúde, capacidade física e sobretudo, determinação!
Interrogo-me acerca do que estará na raiz de tudo isto. Encontro algumas respostas mas não consigo uma que explique o porquê de não levar à letra a minha "velha" crença, afirmada muitas vezes dificilmente ante um exército de descrentes ( alguns já os vejo de calções de lycra, os mariconsos) e ouvir aquele eco interior que me ressoava todo o dia: “isto sou eu, esta é a minha espiritualidade, esta é a minha demonstração de amor pela vida”, porquê?. Um destes dias estava a nadar no universitário e reparo que na pista ao lado está um nadador que pela determinação que punha no treino e pelos abastecimentos na borda da piscina, que consumia a espaços, devia estar a fazer um treino longo de natação, talvez treinar para um Ironman, uma travessia, não sei ao certo. O que sei é que já lá estava e que por lá continuou quando eu saí. Este atleta sem saber, foi inesperadamente protagonista dos meus pensamentos, acerca dos ingredientes para a motivação. Fez-me por isso recordar um livro que o meu irmão me emprestou há uns anos atrás quando comecei a fazer triatlo e que durante algum tempo li com prazer, com o título: “ The Bible of Triathlon”. Um verdadeiro “guia espiritual”, sobretudo pela forma como narrava "história mítica" do triatlo e do protagonismo dos seus "deuses fundadores", mas também porque ensinava quais os ingredientes decisivos do treino e competição para esta fantástica multidisciplina! Vem, como não podia deixar de ser do outro lado do atlântico os EUA e que agora ao procurar no “google” apareceu em muitas línguas, menos em português. Juntando esta leitura ao visionamento das muitas cassetes que gravei no “Eurosport” de Triatlo e Duatlo em meados de 90 e às preciosidades do Ironman do Hawai que igualmente copiava uma vez por ano, eu era um verdadeiro crente! Avé deuses de Kilauea!
O que é que se passou desde então?
Como disse procuro ainda grande parte das respostas.
Ou será que necessito destas?
Talvez mais de perguntas...
Esta semana, comecei a melhorar da gripe e na quinta-feira fiz marcha nórdica, correr estava fora de questão, encontrava-me muito fraco. Mas esta actividade em subidas e descidas é um excelente treino que aconselho vivamente, trekkar :-). Ontem nadei, hoje conto correr e amanhã pedalar, Domingo 20km Cascais. Esfrego entretanto as mãos para o treino de 34Km no dia 25 com a malta do “Mundo da Corrida”.
Esta semana, comecei a melhorar da gripe e na quinta-feira fiz marcha nórdica, correr estava fora de questão, encontrava-me muito fraco. Mas esta actividade em subidas e descidas é um excelente treino que aconselho vivamente, trekkar :-). Ontem nadei, hoje conto correr e amanhã pedalar, Domingo 20km Cascais. Esfrego entretanto as mãos para o treino de 34Km no dia 25 com a malta do “Mundo da Corrida”.
Qua. 1.10 marcha
Qui. 45m ( crawll e costas com barbatanas)
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Posted By Zen to O Homem da Maratona at 2/16/2007 07:04:00 AM
quarta-feira, janeiro 08, 2014
[O Homem da Maratona] RUMO AO TRAIL - SEMANA 13: SIM E NÃO -2007
Em 2007 além das aventuras desportivas, arriscava um texto pretensiosamente neo realista :-) Vá lá, tem pouco arrojo literário, mas está "legível" :-)
No momento em que estou a escrever este "post" os sintomas da gripe ainda estão muito presentes sobre a forma de espirros, dor de costas e de cabeça. Parece que fui atropelado por um camião, dói-me o corpo todo e... também um pouco a alma.
Na semana após a Maratona de Badajoz ainda mal refeito dos sintomas que me atormentaram e que me levaram a desistir desta, treinei muito pouco. No Sábado lá consegui fazer um treino de 2h20m e pensei que a semana seguinte seria muito melhor pois já me sentia “forte” novamente. Tirei até uns dias para estudar e pensei que aos finais da tarde conseguiria fazer o meu treino na Mata da Machada nas calmas. A minha pequenita doente desde a semana anterior foi piorando ao longo desta e acabou por não ir à escola e eu tive de ficar os "dias de férias" em cuidados. Sábado vou trabalhar, “escapo-me até ao universitário onde consigo nadar 40m mas já com sintomas de que alguma “coisa” estaria para vir. Domingo estava de rastos! Com arrepios de frio “arrasto-me” até à Escola onde habitualmente exerço o meu direito de voto. A partir daí foi o que já escrevi. Hoje gostava de andar um pouco vamos ver se consigo. Os 20km de Cascais no próximo Domingo vão ser um “calvário”.
O dia mais importante da semana foi o Domingo. Referendava-se algo de muito importante para a construção de uma sociedade que se deseja mais humanizada. Pena que quase 55% dos eleitores portugueses não tenha percebido isso. O aborto não é uma questão de fácil reflexão e decidir votando é mais difícil ainda, mas fugir sem tomar uma posição acerca de uma questão tão sensível para a sociedade portuguesa, é cobardia!
Para mim também não foi fácil. Primeiro porque não apanho comboios ideológicos só porque estes representam as minhas tendências políticas contra os que não as têm. Depois porque para além de todo o pragmatismo da política, existe um lado mais pessoal, mais moral talvez, direi mesmo, mais espiritual na avaliação destas questões e onde cruzamos (por vezes confusamente) as nossas experiências de socialização com a nossa personalidade, é isso que forma a “mundividência” (digo eu).
Procurei reflectir tudo isto e escrevi uma história ficcionada que facilmente se transpõe para a realidade social portuguesa ,a história da Cidália. Podia ser a menina da foto num “bidonville” nos arredores de Paris durante a emigração em massa para França nos anos 60-70, como a da Cidália no bairro da Musgueira que passarei de forma resumida a contar (para que quem a leia não perca a paciência com uma história tão comprida ainda por cima num blog que supostamente devia relatar os gostos e as práticas desportivas do autor).
Cidália nascera já em Lisboa sob o olhar benevolente do retrato de Cristo pendurado sobre a cabeceira da cama mal iluminado pela luz difusa de um candeeiro a petróleo. Fazia frio nesse dia e nem o forro de cartão que o pai pusera recentemente para tapar as largas frestas da tosca barraca pareciam impedir que ele se “colasse” às paredes daquele quarto tornando-o ainda mais sombrio. Cidália era a irmã mais nova de sete irmãos, a “ lisboeta” como diziam os pais. Estes tinham vindo no ano anterior de uma aldeia da Beira Baixa para fugir à miséria e à servidão da vida do campo ainda governado pelos chamados “Senhores”, proprietários de muitas e boas terras e donos do destino das almas que por ali habitavam em casas de pedra com animais pelo meio.
A viagem de comboio para Lisboa foi para todos um dia inesquecível, como tudo era diferente para além daquela paisagem árida que tinham deixado. Salazar morrera um ano antes, ainda morriam soldados em África e a Lisboa chegavam muitas gentes, do interior do país e das chamadas colónias. Arranjar casa não era fácil e emprego também, mas sempre se arranjavam uns biscates para “o mata-bicho e para o pão dos gaiatos” dizia o Pai. A barraca no bairro da Musgueira parecia ser o início de uma nova vida e a Mãe até costumava dizer “ se Deus quiser havemos de ter melhor”.
Cidália nasceu já o pai chegava a casa bêbado quase todos os dias e raro não era aquele em que “desancava” na Mãe. Os irmãos deambulavam pelas ruelas do bairro para fugir às sovas do pai e o mais velho já tinha sido preso por furto de um automóvel, “são as más companhias” diziam as vizinhas. D. Idalina pegou na bebé e disse “que bonita gaiata! Qual é o nome que lhe vais pôr Rosa?” “Cidália” disse a Mãe. Vai cantar o fado como a Cidália Moreira.
Os anos passaram, a Mãe de Cidália morrera durante mais um parto naquele quarto sobre o olhar benevolente de Cristo, a criança morrera também. Cidália passara a ser a mulher da casa. Nem à escola o Pai a deixava ir, dizia “ Mulher é para ficar em casa a cuidar dos Homens”. Cidália cresceu assim sem saber uma letra, tornou-se menina e moça e nela “alvorecia” um corpo de mulher. O Pai também reparara nisso e um dia entorpecido pelo vinho tentou abusar de Cidália amachucando o seu corpo com as mãos calosas e sujas. Ela fugiu cheia de medo e nunca mais voltou a casa. Arranjou emprego como criada de servir lá para os lados de Cascais na casa de uns “Senhores ricos”. D. Gertrudes gostava dela, era arrumada, limpa e trabalhadora. Morava num quartinho por baixo do vão das escadas, era o seu pequeno mundo decorado com duas bonecas, uma “sevilhana” em cima da cama oferecida pelo “padrinho”, o Sr. Carlos marido da D. Getrudes e outra já gasta que guardava dos seus tempos de criança e da qual desconhecia a origem pois tinha sido dada pelo Cazé o irmão mais velho quando ela fizera 10 anos.
O tempo passou e Cidália tornou-se uma bonita moça de 15 anos, muito obediente, uma "santinha" segundo as palavras da patroa. Ultimamente leva-lhe ao quarto todos os dias o almoço, pois D Gertrudes fora a Espanha numa viagem rápida fazer não sei o quê e voltara de lá doente da barriga. D. Getrudes acamada, chamava o padre quase todos os dias para se confessar e depois deste ir embora dizia a Cidália “com caridade e como missas deus irá perdoar-me todos os meus pecados”.
Um dia Cidália estava deitada entretida a pentear a “sevilhana” e o Sr. Carlos entrou e disse-lhe “ sabes, eu gosto muito de ti Cidália é como se fosses minha filha”. Cidália não sabia o que dizer e muito menos fazer quando o Sr. Carlos lhe começou a passar as mãos pelos cabelos, e pelas pernas.
Passaram três meses e começou a sentir enjoos e vómitos. D. Gerturdes chamou o médico que depressa fez o diagnóstico “ a Cidália está grávida”! “Grávida”?! Disse a D. Gertudes, “Como é que esta cadela que não saiu da minha casa está grávida?!” Que vá para o inferno! E Cidália foi para o inferno do seu antigo Bairro, grávida e órfã de Pai que morrera no ano antes sem que ela soubesse. Ficou na casa de um dos irmãos. A cunhada tratava-a mal e nem grávida a poupava das tarefas mais duras. “Pariu” o João em Agosto e foi a velha Idalina que o tirou cá para fora “ ah, rapariga, tens tanta força” disse-lhe.
Os anos passaram e Cidália, teve dois, três, quatro filhos e engravidara novamente. Não vivia com o Pai de nenhum deles. Os homens todos lhe prometeram futuros risonhos e Cidália cedia ao sonho daquelas palavras e ao doce toque dos afagos. Era uma mulher de 30 anos e perdera o brilho da juventude, tinha um ar cansado, parecia mais velha. Levantava-se todos os dias às 5h da manhã para ir fazer limpezas, voltava às 11h e ía outra vez às 17h. O filho mais velho já lhe dava chatices e a Polícia já lá tinha ido a casa levá-lo por diversas vezes. Cidália, afagava-lhe os cabelos e dizia-lhe “ porque fazes isto João, a Mãe gosta tanto de ti”. Mas João era um miúdo rebelde que fugia da escola para ir jogar à bola nos labirintos do bairro e quando tinha fome reunia os amigos e dizia “ vamos fanar umas coisas lá no Pingo Doce?!”
Cidália não podia ter mais filhos. Não conseguia alimentar todos. Quando foi falar com a assistente social para que a pudessem ajudar a cuidar da mais nova esta respondeu-lhe “ porque é que a menina não para de parir! Irra parece um bicho!” Cidália saiu de lá desesperada, precisava de encontrar uma solução. Encontrou na rua a D. Idalina e perguntou-lhe “ Mãe" tratava-a assim por carinho, "preciso de desmanchar isto”. “Oh filha não faças isso”! Tem de ser Mãe, tem de ser,ajude-me!” D. Idalina indicou-lhe um “abortadeira” que morava na zona sul numa casa de tijolo e reboco pintada de um bonito "azul bébé". O marido tinha um bom carro e havia quem dissesse que tinham umas casas lá para o centro de Lisboa. Dizia-se à boca cheia no bairro que ganhava muito dinheiro com os “desmanchamentos”.
Naquele dia não foi trabalhar e foi fazer o “desmancho”. Regressou a casa cheia de dores, a “abortadeira” não lhe dera comprimidos pois ela não tinha dinheiro para os pagar. Três dias em casa na cama a latejar de febre e foi a D. Idalina que chamou uma ambulância quando a viu naquele estado já ela delirava e dizia coisas esquisitas. Esteve mais dois dias no hospital e morreu. Na sua campa rasa está um jarra com flores de plástico e uma “sevilhana” ressequida pelo sol.A Cidália é uma ficção. Mas será que não existem por aí muitas Cidálias? Por eu saber que sim, votei SIM.
Desculpem qualquer coisinha, da próxima vez falarei das minhas aventuras desportivas. Resta-me recuperar desta “moenga”.
Cidália nascera já em Lisboa sob o olhar benevolente do retrato de Cristo pendurado sobre a cabeceira da cama mal iluminado pela luz difusa de um candeeiro a petróleo. Fazia frio nesse dia e nem o forro de cartão que o pai pusera recentemente para tapar as largas frestas da tosca barraca pareciam impedir que ele se “colasse” às paredes daquele quarto tornando-o ainda mais sombrio. Cidália era a irmã mais nova de sete irmãos, a “ lisboeta” como diziam os pais. Estes tinham vindo no ano anterior de uma aldeia da Beira Baixa para fugir à miséria e à servidão da vida do campo ainda governado pelos chamados “Senhores”, proprietários de muitas e boas terras e donos do destino das almas que por ali habitavam em casas de pedra com animais pelo meio.
A viagem de comboio para Lisboa foi para todos um dia inesquecível, como tudo era diferente para além daquela paisagem árida que tinham deixado. Salazar morrera um ano antes, ainda morriam soldados em África e a Lisboa chegavam muitas gentes, do interior do país e das chamadas colónias. Arranjar casa não era fácil e emprego também, mas sempre se arranjavam uns biscates para “o mata-bicho e para o pão dos gaiatos” dizia o Pai. A barraca no bairro da Musgueira parecia ser o início de uma nova vida e a Mãe até costumava dizer “ se Deus quiser havemos de ter melhor”.
Cidália nasceu já o pai chegava a casa bêbado quase todos os dias e raro não era aquele em que “desancava” na Mãe. Os irmãos deambulavam pelas ruelas do bairro para fugir às sovas do pai e o mais velho já tinha sido preso por furto de um automóvel, “são as más companhias” diziam as vizinhas. D. Idalina pegou na bebé e disse “que bonita gaiata! Qual é o nome que lhe vais pôr Rosa?” “Cidália” disse a Mãe. Vai cantar o fado como a Cidália Moreira.
Os anos passaram, a Mãe de Cidália morrera durante mais um parto naquele quarto sobre o olhar benevolente de Cristo, a criança morrera também. Cidália passara a ser a mulher da casa. Nem à escola o Pai a deixava ir, dizia “ Mulher é para ficar em casa a cuidar dos Homens”. Cidália cresceu assim sem saber uma letra, tornou-se menina e moça e nela “alvorecia” um corpo de mulher. O Pai também reparara nisso e um dia entorpecido pelo vinho tentou abusar de Cidália amachucando o seu corpo com as mãos calosas e sujas. Ela fugiu cheia de medo e nunca mais voltou a casa. Arranjou emprego como criada de servir lá para os lados de Cascais na casa de uns “Senhores ricos”. D. Gertrudes gostava dela, era arrumada, limpa e trabalhadora. Morava num quartinho por baixo do vão das escadas, era o seu pequeno mundo decorado com duas bonecas, uma “sevilhana” em cima da cama oferecida pelo “padrinho”, o Sr. Carlos marido da D. Getrudes e outra já gasta que guardava dos seus tempos de criança e da qual desconhecia a origem pois tinha sido dada pelo Cazé o irmão mais velho quando ela fizera 10 anos.
O tempo passou e Cidália tornou-se uma bonita moça de 15 anos, muito obediente, uma "santinha" segundo as palavras da patroa. Ultimamente leva-lhe ao quarto todos os dias o almoço, pois D Gertrudes fora a Espanha numa viagem rápida fazer não sei o quê e voltara de lá doente da barriga. D. Getrudes acamada, chamava o padre quase todos os dias para se confessar e depois deste ir embora dizia a Cidália “com caridade e como missas deus irá perdoar-me todos os meus pecados”.
Um dia Cidália estava deitada entretida a pentear a “sevilhana” e o Sr. Carlos entrou e disse-lhe “ sabes, eu gosto muito de ti Cidália é como se fosses minha filha”. Cidália não sabia o que dizer e muito menos fazer quando o Sr. Carlos lhe começou a passar as mãos pelos cabelos, e pelas pernas.
Passaram três meses e começou a sentir enjoos e vómitos. D. Gerturdes chamou o médico que depressa fez o diagnóstico “ a Cidália está grávida”! “Grávida”?! Disse a D. Gertudes, “Como é que esta cadela que não saiu da minha casa está grávida?!” Que vá para o inferno! E Cidália foi para o inferno do seu antigo Bairro, grávida e órfã de Pai que morrera no ano antes sem que ela soubesse. Ficou na casa de um dos irmãos. A cunhada tratava-a mal e nem grávida a poupava das tarefas mais duras. “Pariu” o João em Agosto e foi a velha Idalina que o tirou cá para fora “ ah, rapariga, tens tanta força” disse-lhe.
Os anos passaram e Cidália, teve dois, três, quatro filhos e engravidara novamente. Não vivia com o Pai de nenhum deles. Os homens todos lhe prometeram futuros risonhos e Cidália cedia ao sonho daquelas palavras e ao doce toque dos afagos. Era uma mulher de 30 anos e perdera o brilho da juventude, tinha um ar cansado, parecia mais velha. Levantava-se todos os dias às 5h da manhã para ir fazer limpezas, voltava às 11h e ía outra vez às 17h. O filho mais velho já lhe dava chatices e a Polícia já lá tinha ido a casa levá-lo por diversas vezes. Cidália, afagava-lhe os cabelos e dizia-lhe “ porque fazes isto João, a Mãe gosta tanto de ti”. Mas João era um miúdo rebelde que fugia da escola para ir jogar à bola nos labirintos do bairro e quando tinha fome reunia os amigos e dizia “ vamos fanar umas coisas lá no Pingo Doce?!”
Cidália não podia ter mais filhos. Não conseguia alimentar todos. Quando foi falar com a assistente social para que a pudessem ajudar a cuidar da mais nova esta respondeu-lhe “ porque é que a menina não para de parir! Irra parece um bicho!” Cidália saiu de lá desesperada, precisava de encontrar uma solução. Encontrou na rua a D. Idalina e perguntou-lhe “ Mãe" tratava-a assim por carinho, "preciso de desmanchar isto”. “Oh filha não faças isso”! Tem de ser Mãe, tem de ser,ajude-me!” D. Idalina indicou-lhe um “abortadeira” que morava na zona sul numa casa de tijolo e reboco pintada de um bonito "azul bébé". O marido tinha um bom carro e havia quem dissesse que tinham umas casas lá para o centro de Lisboa. Dizia-se à boca cheia no bairro que ganhava muito dinheiro com os “desmanchamentos”.
Naquele dia não foi trabalhar e foi fazer o “desmancho”. Regressou a casa cheia de dores, a “abortadeira” não lhe dera comprimidos pois ela não tinha dinheiro para os pagar. Três dias em casa na cama a latejar de febre e foi a D. Idalina que chamou uma ambulância quando a viu naquele estado já ela delirava e dizia coisas esquisitas. Esteve mais dois dias no hospital e morreu. Na sua campa rasa está um jarra com flores de plástico e uma “sevilhana” ressequida pelo sol.A Cidália é uma ficção. Mas será que não existem por aí muitas Cidálias? Por eu saber que sim, votei SIM.
Desculpem qualquer coisinha, da próxima vez falarei das minhas aventuras desportivas. Resta-me recuperar desta “moenga”.
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Posted By Zen to O Homem da Maratona at 2/13/2007 03:57:00 AM
terça-feira, janeiro 07, 2014
RAID AVENTURA DE AZEMÉIS - Magazine OTV | Dezembro 2013
Minuto 7.33 e a partir do minuto 12: "ò mãe apareço na televisão"! :-). Magazine O-TV passou no passado domingo na RTP2.
[O Homem da Maratona] RUMO AO TRAIL :SEMANA 12 - O INVERNO NUNCA MAIS SE VAI ...
Depois da semana 10 que foi a minha desistência aos 23km na Maratona de Badajoz, cheguei à semana 11 de preparação para os Caminhos de Santiago Trail Aventura...
Diosaz 500 - Trail Shoes
Arre! Este tempo nunca mais se vai embora?! Ando tolhido de frio, não me apetece treinar, os dias nunca mais se "alargam", como mais, o pessoal aqui em casa não recupera das gripes, demoro o dobro do tempo a atravessar o rio por causa do mau tempo... Este é mais um "Inverno do meu descontentamento". Claro que quando chegar a "canícula" do Verão digo exactamente o contrário " nunca mais vem um dia fresco", mas nunca o Inverno! Fico-me pelo desejo dos equinócios, sobretudo da "apaixonada" ( foi nela que vivi as minhas maiores tempestades amorosas) Primavera que se aproxima, apesar dos espirros que me provoca já a sinto misturada neste manto húmido o seu delicioso perfume.
Pois é, este post vem acompanhado de uma imagem de sapato de trail/raid porque foi este o modelo que comprei para os treinos do Trail Caminho de Santiago: uns Diosaz 500 da Quechua/Decatlhon. Depois de andar a namorar durante muito tempo os Salomon XA Pro 3D, estes nunca se decidiram a ficar em saldo e eu um destes últimos dias, por sinal de pechinchas, no hiper do costume, zás, comprei aqui este rico sapatinho. Já tinha lido acerca das suas qualidades, no site da empresa que os produz, em fóruns, e a avaliação parece ser boa, agora a nota final são os meus pés que a vão dar depois de uns treinos "todo o terreno" ali para os lados da Arrábida. Temo que possam ser um "pouco duros", mas depois de ver as fotografias do percurso entre Minho e a Galiza correspondentes à "via sacra" que me espera no referido Trail, acho que são ideais e se não forem, levo um par suplente.
Depois do desastre Badajoz, recuperei bem e na quarta (da semana passada) fiz o meu primeiro treino. Isto não está mau. Estou mais magro (não muito mas ainda assim com menos 3 que tinha no início de Janeiro), mais rápido e por isso como se diz à boa moda da gíria runner "mais solto". Como parece que não posso "cantar de galo" sem que perca o pio logo a seguir, desde esse dia até hoje só consegui treinar mais duas vezes corrida, uma vez natação e uma amostra de BTT. Isto de ser trabalhador, estudante, Pai x 2, baby sitter, marido..."ando so on, and so on", dá um trabalho do caraças e ocupa-me o tempo para a preguiça, o melhor para treinar ( e faz-me muita falta). Vou esperar que a próxima semana seja melhor, pelo menos meteorologicamente.
Notícia de última hora: consegui libertar-me no trabalho para fazer os 20km de Cascais o que me deixa muito satisfeito, gosto muito da prova.
Qua - 1.10
Qui - 1000 mts natação.
Sex - Des.
Sáb - 2.20 CC
Dom - BTT 16Km
Seg - O
Ter - O ( não posso mesmo treinar)
Qua - 1.10
Qui - 1000 mts natação.
Sex - Des.
Sáb - 2.20 CC
Dom - BTT 16Km
Seg - O
Ter - O ( não posso mesmo treinar)
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Posted By Zen to O Homem da Maratona at 2/06/2007 02:43:00 PM
segunda-feira, janeiro 06, 2014
ANO NOVO VIDA NOVA
Lá ando eu com falta de inspiração para escrever aqui no "Trilhos". Devo esgotá-la toda ali para os lados do Facebook e depois, claro está, não produzo nada de interesse aqui para estes lados, também estou a ficar submetido "às lógicas sociais das interacções" do momento. Por falar em "interesses" ou "lógicas", suspeito que os blogues estão a perder caminho para os "facebookes" para "Intagrams" e & , a primazia da imagem, do instantâneo, do reduzido, do "simples", daquilo que se lê rápido, sem muita necessidade de "mastigação", dos conteúdos que podemos consumir "logo ali", vistos por todos, comentados, gostados, partilhados numa "comunidade fraterna de interesses", ganham definitivamente terreno. Lembro-me dos "forúns na internet" onde durante anos fui assíduo leitor e escriba, motivado talvez pela procura da mesma "comunidade de interesses" mas onde pequenas diferenças faziam a diferença entre estes e o actual FB. Uma delas era o não haver "likes" ( que subentenda-se revela muito pouco ou coisa nenhuma), outra e para mim a mais importante, era que os assuntos fugiam na sua maioria do "individual", procurando-se falar de assuntos de interesse geral. Além disso toda a gente "tomava uma posição", arriscando fazer um cometário com mais de dez palavras, mesmo que nove tivessem erros de gramática ou lexicais ( os corretores ortográficos eram ferramentas praticamente desconhecidas para a maioria). Na actualidade os fóruns praticamente desapareceram, morreram às mãos de uma certa evolução no mundo das "redes sociais", mas também nos padrões de interacção humana.
Outro exemplo que parece anunciar uma outra morte é a destes espaços onde ainda escrevo e espero escrever por mais uns anos, os blogues. Isto não é nenhuma conclusão, é apenas uma observação ( talvez mais uma problematização) que faço a partir das mensagens que publiquei no meu anterior blogue " O Homem da Maratona": raras vezes tinha menos de dez comentários por mensagem! Os "comentadores" iam desde bloggers conhecidos, os tais ligados à "comunidade fraterna de interesses", até anónimos e, não raras vezes, pessoas de outros países, uma delas cheguei a conhece-la pessoalmente, o simpático belga Dominique Diricq. Actualmente, tenho nas estatísticas cerca de 60 leitores por mensagem, mas raros comentários, o que me leva a supor que o que publico deixou de ter interesse ou as pessoas já não querem perder muito tempo a dar uma palavrinha, consome-se e ala que há muito para consumir neste maravilhoso mundo de virtualidades ( e poucas virtudes). Até os meus visitantes estrangeiros ( caramba como me intrigam, pois espero sempre que sejam velhos(as) amigos(as) e que me mandem saudades em beijos e abraços ou ainda em possíveis (re)encontros), se tornaram recentemente mudos e sem rosto.
Mas isto que acabei de escrever não é suficiente para me tirar o sono, nem para matar este blogue outra vez ( acho que já lhe esgotei as sete vidas), embora tal como disse, continuo a privilegiar velhos modos de interagir: nada como uma boa conversa em voz e de olhos nos olhos! O que me tira por vezes o sono é gastar todas as energias e parecer-me que o barco que venho remando ao longo da vida não consegue vencer a corrente contrária. Caramba, vou remar ainda com mais força, ano novo vida nova!
Quanto aos treinos, depois de uma paragem por causa de mais trabalho, festas ( ainda bem que se foram, por minha vontade saltava esta época do ano) e sobretudo doença, com mais de dez dias de "molho", regressei na sexta feira dia 3 de Janeiro com o treino convívio dos "piratas" em Almada ( fotos em baixo de um autor que desconheço e espero que não me processe por as publicar aqui) e hoje com duas horas num Monsanto enlameado mas a cheirar maravilhosamente. Já é um bom principio para sobreviver no final do mês aos "Trilhos dos Abutres", até porque será difícil perder nas próximas três semanas o que ganhei nas três semanas anteriores, ou seja quatro quilos de tecido adiposo ( que me tinham levado mais de três meses a perder). Apesar de tudo estou focado ou com costumo dizer, "com as sinapses todas ligadas"! :-)
Abraços
Fotos do treino pirata de Almada ( autor desconhecido mas a quem agradeço a publicação)
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