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Um umbigo sobre rodas


Há falta de tempo e pachorra para treinos no "mato", tornei-me um especialista em deslocações de bicicleta na cidade, sobretudo no trajecto casa trabalho. Conheço pelo hábito todos os "pontos negros" do percurso que faço quase diariamente ( e não são poucos), mas muitas vezes sou surpreendido mais pelas minhas "improvisações" do que pela já conhecida má qualidade daquilo a que os nossos iluminados dirigentes do edil lisboeta teimam em chamar "ciclovia". Hoje de manhã, a rolar a bom ritmo para vencer o relógio que me dava como atrasado no "picar do ponto", salto da ciclovia para a estrada ali para os lados do Cais do Sodré e entre olhar a aproximação de um carro e alinhar-me com o alcatrão, não tirei bem as medidas ao lancil ( acho que os engenheiros da câmara também não) e "catrapimba", estatelo-me no chão! Felizmente sou experimentado nestas "quedas na máscara" ( como dizíamos na tropa quando nos tínhamos de atirar para o chão fosse aonde fosse) e saí pela frente da bicicleta. Resultado, protegi os flancos e as clavículas, mas não me livrei de moer as mãos ( sobretudo os dedos da mão esquerda)e os (já habituados) joelhos. Mas o que mais me surpreendeu veio a seguir: ainda a levantar-me do chão enquanto avaliava os "estragos", passa por mim um outro ciclista e pasme-se... não para, não pergunta se estou bem e preciso de alguma coisa, como ainda olha para o lado (só lhe faltou assobiar distraidamente). Indigno-me. Venho o resto do percurso a doer-me mais a alma que os dedos e o joelho. Não sou dado a generalizações, mas parece-me que o problema português não está na "dívida soberana" está antes num deficit de valores de entreajuda, de solidariedade, de respeito pelo próximo em suma de altruísmo. Preferimos as solidariedades espectáculo, um carneirísmo que não custa e até "fica bem" ( o saquinho do banco alimentar no supermercado, entre outros), mas somos incapazes de ajudar alguém "real" que precise ao nosso lado. Liguei o acontecimento hoje com as observações de ontem quando subia a baixa e depois a Av. da Liberdade também de bicicleta, o regresso da indigência às ruas de Lisboa. Nos anos 90,década que vivi de perto os dramas desta cidade e num período em que o dinheiro dos tais "fundos sociais europeus" ainda não tinham sido canalizados para as instituições de solidariedade e apoio social ( antes para os bolsos de alguns oportunistas) a quantidade de pessoas em situação de miséria absoluta, de abandono, de vulnerabilidade social era enorme, aspecto que fui constatando ter melhorado significativamente com o passar dos anos. Mas mais recentemente o problema parece ter voltado e em força. No que parece ser mais uma das consequências da actual "crise" da economia ( e é-o de facto) eu problematizo com o que me parece ser também uma crise de um fundamental "sentido colectivo solidário" ( usando termos do senso comum). Estimulado o "individualismo competitivo" que tanto alimentou a livre iniciativa e o consumo das massas, a crise põe a nú um individualismo mais torpe, aquele em a única vista do mundo é a do nosso umbigo.

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Se a moleza se cansasse
Se o Eusébio 'inda jogasse
Ai que fintas que ele faria um dia...
Se o imposto não subisse
Se o emprego não fugisse
Se o presidente sorrisse
Outro galo cantaria um dia...
Se cá nevasse fazia-se cá ski...
Se cá nevasse fazia-se cá ski...
Se cá nevasse fazia-se...fazia-se...

Há sempre um "se" no caminho
Que me deixa as mãos tão presas
Se eu cortasse o "se" daninho
Talvez me livrasse das incertezas...
Se cá nevasse fazia-se cá ski...
Se cá nevasse fazia-se cá ski...
Se cá nevasse fazia-se...fazia-se..."

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