sábado, fevereiro 21, 2015

CAXIAS - PAÇO DE ARCOS

E lá cumpri com o irreversíveis aventureiros Jorge e Luis, uma das suas muitas travessias Caxias - Paço de Arcos. Esta "edição" teve o sugestivo nome de "Travessia Pirata de Carnaval", embora a temperatura da água a pouco menos de 14º não estivesse propriamente para "carnavais". No final dos mais de 2500mts não me ri, porque não conseguia, tinha a cara gelada, mas estava feliz por diferentes motivos: pelo ambiente extraordinariamente fraterno que encontrei esta manhã, pelas saudades que eu tinha de fazer umas "águas abertas" ( olhar o azul do céu, ver gaivotas a pairar por cima de mim e estar num imenso mar conectado com o universo) e por ter "desembarcado" na praia onde fiz o meu 1º triatlo na companhia do meu irmão António ( Triatlo do Ambiente em 1995), um local "mítico" portanto!

 PS- Um recado para aquelas "betinhas da linha" desta manhã escandalizadas por verem três maduros a beber uma cervejola às 10 da matina no paredão de Oeiras: " vão dar banho ao pipi no mar que isso passa!" 
Abraços aos presentes ( esqueci-me da incondicional Iolanda no apoio) 








 Fotos: Jorge e Luis Miguel/Iolanda

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

CALENDÁRIO DAS CORRIDAS DE AVENTURA 2015

A modalidade desportiva mais desafiante do planeta, tem finalmente um calendário português para 2015 . Depois das enormes dificuldades sentidas para a organização da Taça Nacional de Corridas de Aventura e Campeonato Nacional, eis que se mobilizaram as "forças vivas" da aventura, ou seja, o altruísmo daqueles que se recusam a deixar morrer este extraordinário "desporto aventura". Contrariam assim a "profecia" e as intenções de falsos desportistas de que a modalidade desapareceria para breve, sobretudo e em primeiro lugar da tutela da Federação Portuguesa de Orientação. Afinal estavam enganados, as CA´s andam, para mim inexplicavelmente, a "balões de soro" já há uns anos ( depois de anos fantásticos com um calendário preenchido e dezenas de equipas em competição) mas ainda mobilizam os verdadeiros apaixonados pela aventura. Aventureiros que tal como eu, acreditam que esta será uma modalidade no futuro terá "lotação esgotada", basta conseguirmos transferir praticantes de outras modalidades de aventura em natureza e acreditem, há "base de recrutamento" mais do que suficiente para que isso aconteça! 
As teorias pouco consistentes de que a crise económica é a responsável pelo afastamento das pessoas da modalidade, de que a "moda" agora são os desportos individuais de endurance em detrimento dos desportos de equipa ( é uma hipótese, mas com pouca substância e portanto de curto alcance), entre outras explicações "caóticas", parece-me serem mais vaticinadoras do que científicas. Mãos à obra que isto é apenas um ciclo, há sempre um contra ciclo, "os ventos não sopram sempre de estibordo".  Serão por isso necessárias alterações aos "regulamentos de competição" ( que foram e estão a ser feitas), aos modelos de prova, aos mecanismos de captação, de incentivo e imagem da modalidade. Tudo o resto caminhará por si, mas antes, temos de conseguir com inteligência vencer os habituais "profetas da desgraça" ( que em Portugal são uma verdadeira instituição) e que tanto prejudicam o crescimento da modalidade. Afinal, duvido que não haja quem goste de ter mapa na mão e partir à descoberta a pé, de bicicleta ou em caiaque da deslumbrante natureza que nos rodeia e da qual, nós portugueses somos verdadeiramente, "privilegiados". Aventurem-se!

1 MARÇO 2015 Santa Maria da Feira ( conforme imagem em baixo)

11 Abril COA - Abrantes
4 e 5 Julho - Escola de Armas - Mafra
19, 20 Setembro - Sulslowly - Sagres
7 e 8 Novembro – Prova Fedo - Cáceres ( Espanha e Campeonato Ibérico)
21 e 22 Novembro ADFA – Idanha-a-Nova.

Entretanto mais dinâmicos os nossos vizinhos espanhóis, realizam já umas das suas muitas provas, esta da Liga da Estremadura espanhola
http://www.extremaduraraid.com/index.php/48-raids/iii-siberia-raid/244-iii-siberia-raid

domingo, fevereiro 08, 2015

TRILHOS DOS ABUTRES 2015 (PARTE II)



"Isto contado parece mentira" lembro-me de pensar várias vezes Para alguém que nunca fez os "abutres", há pormenores do percurso e do ambiente que o rodeia que são difíceis de descrever por palavras. Tenho sempre a ideia que quando conto alguém as vivências nesta prova, elas parecerão ao interlocutor inverossímeis. É preciso experimentar, primeiro trail, depois este empeno e assim já estaremos em "sintonia".
Como referi no primeiro post, " sentia-me cheio de pica", mas sei que estou pouco ágil porque salto com dificuldade os ribeiros, as muitas pedras, tropeço várias vezes nas raízes das árvores, ando quando devia correr e quando o faço, percebo que estou lento, pesado, apesar de vivo, a respirar bem e de "cabeça limpa". portanto, nada de ilusões, "carpe diem" Zé! 
O meu maior receio inicial era o de ser atormentado pelas habituais dores de costas. Tão limitadoras neste último mês, tão presentes ainda as que aqui senti no ano passado. Em 2014 quando cheguei ao "Centro de BTT" já estava "partido em dois". Coloquei ai uma cinta que me deu algum alívio, mas a "emenda foi pior que o soneto", a contracção dos músculos abdominais, causou-me outro tipo de dores, ainda mais fortes, foi um castigo até ao Gondramaz ( e o Penedo dos Corvos é tão bonito que qualquer um que por ali passe deve dar graças ao facto de estar vivinho da silva e estar ali).
Duas horas depois nada de maleitas. Tenho apenas calor, deve ser a fornalha dos músculos alimentados com muito tecido adiposo que libertam energia em excesso. Vejo malta muito agasalhada, com medo da chuva e do frio. Imagino que por dentro podem estar molhados de suor. Lembrei-me que no UTMB passei pelo mesmo, tive  receio da chuva e do frio, pois aproximava-me de um "colo" de 1000mts e vesti o impermeável cedo de mais, resultado, passado uns minutos estava mais molhado por dentro do que por fora. Se tivesse que fazer toda a prova naquelas condições e com uma peça de vestuário daquela qualidade ( falta o pilim para um gore-tex como deve ser), iria sofrer, quando subisse acima dos 2000mts, o suor gelar-me-ia.
Nada de stresses por agora. Como pouco no primeiro abastecimento ( uma novidade para um lambão como eu) e não me demoro. Mais à frente cai a primeira saraivada de granizo, forte e a temperatura abruptamente. Visto uma camisola de mangas e o impermeável. Dispo este último quando a chuva para, apesar do ar frio se manter. Vou andando, correndo, saltitando, fixe, fixolas, barril! Não estou enturmado, ultrapasso e sou ultrapassado pelos mesmos protagonistas várias vezes e chego sem dar por isso ao CP2 de Mestrinhas ao Km 17. Ai vejo as primeiras "vítimas" dos Abutres e não são poucas. A maioria está embrulhada em mantas térmicas, treme e acotovelam-se para receber um pouco de calor de uma fogueira acesa pela organização. Ali há um habitual nevoeiro e frio por estarmos quase alto da Lousã. Eu começo a gelar e mais uma vez não demoro muito no abastecimento. Mais à frente, em campo aberto, cai a segunda saraivada de granizo com flocos de neve à mistura. Sei que tenho de aguentar estas condições mais um ou dois quilómetros, a seguir vou mergulhar na floresta e começar a descer. Sim a descer, mas por dentro de cascatas de água gelada. O trilho mesmo assim é lindíssimo ( talvez mais ainda), corre-se ao longo destes cursos de água em torrente como se não estivéssemos numa prova de corrida, antes canyoning. Atravesso um ribeiro principal vezes sem conta através de toscas pontes de madeira. Muitas tão toscas e enlameadas que atiram atletas para um inesperado banho gelado. O trilho aqui é mais difícil do que os que já tinha até então percorrido, são muitas as quedas que vejo e eu, não destoou, vou também ao "tapete e ao "charco". É preciso ter cuidado, as arestas de xisto que pontilham os trilhos, devem fazer um trabalho tão bem feito, como fizeram os machados de silex por ali há milhares de anos. Sinto-me outra vez o tal "troglodita", mas  entretanto perdi o Mamute, este  migrou para norte para a tundra siberiana, agora persigo serra a baixo uma corsa rápida, tenho de ser ágil e manter-me inteiro, já não sou um Neanderthal rude e desajeitado atrás de grandes presas, sou um sapiens cheio de tecnologia rumo à diáspora no universo. Por fim desço por uma longa corda e reparo que na estrada está muita gente. "Que raio?!" Inicialmente pensei: "a organização decidiu interromper a prova". Afinal não, a organização aplicou antes o regulamento que dizia que quem chegasse ao CP 3 na Srª da Piedade no km 29, acima das 5h30 seria "barrado". Eu chegara ali com 6h10, 40 minutos depois do "fecho". Nada a fazer, apesar de contrariado aceitei a decisão. Compreendendo que a organização ao adiar duas horas a hora da partida este ano, não quis arriscar naquelas condições ter muitos atletas de noite na serra. Apesar do equipamento obrigatório exigir frontal, manta, saco de água, impermeável, apito e telemóvel, o que se seguia era muito duro e de noite, para malta com menos experiência, tornar-se-ia perigoso. Felizmente não temos notícias de mortes em provas de trail portuguesas, mas elas podem acontecer nestas condições. Que o digam os franceses.
No "corte" encontrei muita gente que não esperava encontrar. Malta que há uns anos me dava um "grande bigode", sobretudo na estrada, altura em que eu também era atleta com seis letrinhas apenas. As 5h30 de tempo limite para os 29km tinham sido afinal "apertadas" para muitos "prós". A prova disso é que dos mais de 500 atletas na partida, apenas 320 chegaram à meta. Eu estava conformado, nas condições em que tinha alinhado à partida, chegar aos 30km com a sensação que mesmo que demorasse 12h fazia aquilo com um "briolhozinho nos olhos", foi uma pequena vitória. Lembro-me de ter sugerido a um camarada durante a nossa viagem para Miranda do Corvo que esta prova devia exigir "pré-requisitos" ( isto porque ele dizia-me que sabia de pessoas que iam fazer estes 50km sem terem feito nenhum trail), entre estes ( requisitos), que o atleta tivesse pelo menos duas provas acima dos 30km nos últimos 6 meses. A organização assim não correria tantos riscos, nem produziria tantos insatisfeitos como vi no final. Apesar de algumas falhas, todo o staff organizativo dos Abutres não merece desfeitas, continuam como há 5 anos atrás, simpáticos, voluntariosos e na generalidade, eficientes, continuam de parabéns!
Fui finisher duas vezes nos abutres, desta vez, não o sendo, tive como prémio a vontade de voltar já para o ano. Até 2016! Abraços aos  que tiveram a coragem de se atirarem para este extraordinário desafio.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

TRILHOS DOS ABUTRES 2015 (PARTE I)


Ir a Miranda do Corvo em Janeiro tem tanto significado para mim, como para a maioria dos crentes que vão a Fátima em Maio. Os "Trilhos do Abutres" são a minha peregrinação anual preferida, primeiro porque a Lousã é um santuário imperdível para quem goste de natureza serrana, segundo porque a organização sabe receber os "devotos" ao Trail e terceiro porque durante 50km redimo todos os meus "pecados", sobretudo os que me impedem sempre de em Janeiro estar em condições físicas aceitáveis para superar um dos percursos mais desafiantes das corridas em natureza portuguesas. É o trail, senhores, é o puro e duro trail!
Este ano a condição que refiro não estava melhor que nos anos anteriores e se nas edições de 2011 e 2013, tinha algum treino, mesmo que miserável e uma ou outra prova de "pré-época", este ano, nicles, rien, nada!
Sentimentos de culpa e receios de insucesso postos de lado ( não ajudam em nada), atirei-me para o empeno, como uma fera esfomeada se atira a um osso mas podendo engasgar-se com ele. Ainda tive um momento de "pieguice" quando há 15 dias, percebendo no que me estava a meter ( pela terceira vez), tentei vender a inscrição. Felizmente a organização não permitia mudanças de última hora o mesmo que dizer, "vem até cá que nós tratamos-te do pêlo". Eu, caí em mim e com esta mentalidade de soldado, mas já cheio de caruncho, respondi-lhes também em surdina: " o pêlo e a barba, pode ser?!".
Fui para Miranda do Corvo na noite anterior à prova para não ter de me levantar às 3 da matina em Lisboa. Com direito a companhia "fraterna" na boleia e a "cunha" de um amigo para dormir num "sítio decente". Livrei-me dos "solos duros" onde já tive muitas noites de insónia, porque entre ressonares, peidos e malta excitada com a "véspera do acontecimento", que entra e sai, conversa a noite toda e acorda com as galinhas, eu vejo um filme surrealista do Fellini na minha cabeça e desejo, em vez de uma boa dose de proteína, antes um revigorante "xanax".
Ambiente festivo à partida onde (re) conheço uns quantos "cromos" ( a maioria pessoas que admiro e com quem tenho (re) encontros saudosos e de manifesta amizade) e muita malta "nova" nestas andanças ( talvez, por andarem nisto há dois trés anos olhem para mim da mesma forma, como uma "novidade").Malta equipadinha a rigor, "vestida para matar" ( ou ser morto pelo que fui vendo lá para Mestrinhas quando o frio apertou), muitas meninas com carinhas larocas ( no meu tempo não era assim, caramba como me sinto velho) e, pelo que percebo durante a prova, espírito bastante combativo. Aliás, durante o percurso pude comprovar isso, tentei ajudar mais do que uma vez e ouvi um, "eu subo sozinha", caí num buraco e foi uma menina que me tirou de lá, doutra forma bem podia partir as unhas que não saía. Apesar de alguns exageros "afirmativos", confesso que gosto desta atitude ( sempre gostei de ver este lado feminino que contrasta com tanto estereotipo que se faz do género, apesar de muitos deles serem reforçados pelo próprio).
Estava portanto eu na partida que tinha sido adiada duas horas por causa de uma chuva diluviana durante toda a noite. A organização anunciava que os trilhos já de si difíceis, tornaram-se ribeiros e os com declive, verdadeiras cascatas que corriam livres serra a baixo. A lama que no ano passado cobria  todos os pés, passou agora a ir até meio da canela e em alguns casos até ao joelho. O desafio era portanto maior do que o de anos anteriores, "porreiro pá", estou mesmo prontinho para a "dose", só espero é que não doa muito! 
E lá vou eu para a terceira em cinco edições dos Abutres. Hoje quando vi as fotografias que me tiraram na prova pergunto: "aquele gajo barrigudo, barbudo e meio marreco sou eu?!", bolas, o que a idade faz às pessoas(!) De facto a andropausa não perdoa, parece uma segunda adolescência, um tipo não se priva de nada que conforte o estômago e os sentidos. E o barrigudobarbudomarreco começou a subir a serra como um verdadeiro troglodita atrás de um Mamute ( onde é que eu já vi isto?). Deixo para trás a companhia da viagem a Miranda, sem quebras de solidariedade, cada um está ao seu ritmo, tudo zen. Eu entusiasmo-me, apesar de pesado sinto-me cheio de "pica". Penso que a todo o momento "vou pagar a fatura". No ano passado entre o "Centro de BTT" ( alto da Lousã) e a aldeia do Gondramaz, num dos trilhos mais bonitos de todo o percurso, amaldiçoei o dia em que me tinha inscrito" naquele inferno". Para já "estou no céu", apesar da "lei da gravidade", sobretudo nas subidas me dizer o contrário, é que 92kg de "felicidade" notada, não é propriamente a "singela" maça que caiu na cabeça newton ( espero não estar a dizer nenhuma asneira, mas se o for, a "culpa" é da andropausa) . ( continua)

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