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CRÓNICA DO MIUT NO FÓRUM O MUNDO DA CORRIDA EM 2009

Estava a ler o Fórum O Mundo da Corrida e um bocado inesperadamente dei com o que tinha escrito em 2009 acerca do Madeira Ultra Trail Island. Apeteceu-me "colá-lo" aqui.

Olá a todos.


Depois de tratadas as bolhas e a preguiça, aqui estou para escrever algumas linhas acerca do MIUT 2009.


Em primeiro lugar quero reafirmar que o que é nacional é bom ( as massas também ;-)! Este ano assistimos a alguns bons eventos de trail nacional, se investirmos com a nossa participação eles certamente que crescerão tornando-se ainda melhores. Só temos vantagens em "ir para fora cá dentro" ( julgo que me estão a perceber...), é bom, mais barato e valorizamos o que é nosso!


Em segundo, o MIUT teve uma organização que pela sua excelente qualidade global merece que se perdoem algumas pequenas falhas que julgo serão corrigidas numa futura edição. Isto porque a organização soube na altura certa ouvir as críticas dos participantes, e quem sabe ouvir, sabe fazer melhor!


Em terceiro, a chamada "Pérola do Atlântico" ( Ilha da Madeira) faz juz do apelido, cada quilómetro mesmo desde duro trail é feito com o prazer de se estar a percorrer um património natural de inigualável beleza e com uma excelente conservação dos trilhos e das heranças do passado. Palavras para quê, vão até lá.


Com isto tudo até parece que estou comprometido com a organização ou com a região de turismo da Madeira, mas não, o meu único compromisso é de alguma forma transmitir-vos o que vivi e possibilitar através da minha experiência outras.

Vamos a alguns pormenores...


Secretariado, transportes de atletas, convívio inicial ( em conjunto com o aniversário do observatório de Porto Moniz), marcação de percurso diurno e nocturno, percurso, simpatia e disponibilidade e assistência aos atletas na grande maioria dos elementos do Clube de Montanha do Funchal, abastecimentos, locais de abastecimento ( espero não ter esquecido nada), foram aspectos que estiveram muito bem, o que demonstra uma organização que esteve no terreno, que conhece a modalidade e se mobilizou para bem receber todos aqueles que quiseram descobrir o MIUT09, parabéns!


Menos conseguido esteve a questão dos "cut offs", a meu ver demasiado apertados para os atletas mais lentos, a distância mal medida em algumas das etapas finais, sobretudo entre o 8º e 9º CP´s e a alteração do regulamento no final da prova que classificou quem passou "fora de tempo" ou chegou além da hora limite de prova ( eu incluído). Esta benevolência talvez se tenha ficado a dever aquilo que acabei de enunciar,mas pronto, "tudo está bem quando acaba bem" e o futuro certamente irá reservar-nos finais ainda mais felizes.
Relativamente à minha participação, reservo pormenores para o meu blog, mas deixo aqui um esboço.


Sexta-feira, eu e a equipa estudamos a táctica durante uma massada de bacalhau regada com um " Coral Tónica" na Pousada da Juventude de Porto Moniz. De tarde relaxamos com uns mergulhos nas piscinas naturais da cidade e ganhamos reservas com uns croquetes e bolo de mel no beberete da organização ( os elementos masculinos exercitam também uma zona do cérebro olhando para uma bonita e sensual madeirense que por ali esvoaçava). Regressamos ao Machico na galhofa ( a boa disposição ajuda à digestão).


Sábado, o despertador toca depois de 3 horas de mau sono. O primeiro pensamento é " onde é que me vim meter, não treinei para isto". Resignado avanço para o transporte que nos leva a P. Moniz.


Partimos... um café aberto, ufa, vou matar o vício. Sou o último e lá vou apanhando os lentos na subida posicionando-me com aqueles com quem fiz a maior parte da prova...


( continua, agora vou apanhar fresco na varanda).

II PARTE


A 1ª parte da prova tem uma subida muito inclinada até deixarmos as belas vistas de Porto Moniz e a imensidão marítima que a abraça. A partir dai, um pouco de estrada e depois o contacto com a 1ª levada. Os trilhos paralelos a estes cursos de água feitos pelo homem são fantásticos. Vou com o meu grupo, ou um pouco mais à frente sozinho. Ora ultrapasso ora sou ultrapassado pelos mesmos rostos, uns mais simpáticos e descontraídos, outros mais concentrados na competição. Paro frequentemente e tiro fotografias, dá-me um certo gozo ir ali um pouco ao sabor do meu ritmo a fazer uma prova descomprometida. Sei que não estou em forma e por isso nada de loucuras, fruir do espaço e chegar ao fim são os grandes objectivos.



A partir do CP da Encumeada começa a Encumeada, o trilho mais difícil e técnico do MIUT até ao Pico do Ruivo. Agora estou com o Rui Marques e o Duarte e vamos progredido entre muitos dedos de conversa que ajuda a aligeirar o esforço de percorrer centenas de escadas assimétricas que descem e sobem entre cumes. Vou observando uma paisagem de altitude que me deixa perplexo pela sua dimensão e profundidade. Observo um mar de nuvens a norte num horizonte que parece infinito e que me remete para as fotografias que vejo frequentemente das expedições ao Tibete que tanto admiro. A sul a povoação de Curral das Freiras emparedada pela altivez da rocha que a circunda e imersa numa ligeira penumbra que acentua a quietude do espaço.


Tivemos sorte, o dia foi fantástico com sol, boa temperatura e sem muito nevoeiro. Chegamos ao Pico Ruivo de noite. Encontro a Analice com quem já me havia cruzado noutros CPs, está desesperada. Não tem luz e a organização impediu-a de continuar em prova. Empresto-lhe o meu 2º frontal, ao qual mudo as pilhas explicando-lhe o seu funcionamento. Parte feliz e ligeira, que mulher corajosa!Quase a 1700mts de altitude e em trilhos que exigem apuro técnico e com 78km nas pernas, eis que esta senhora de 64 anos se lança ao desafio com uma determinação exemplar. A senhora não tem ainda uma idade profética, mas se todos nós com esta idade fizermos o que ela faz... os nossos netos vão adorar ter um avozinho radical e os nosso filhos vão andar com o coração nas mãos, ehehehe.


O trilho do Pico do Ruivo ao Areeiro é fabuloso. Está uma lua cheia que quase dispensa a utilização do frontal nas vertentes que ilumina. Cá mais em cima muito vento que nos obriga a agarrar à balustrada para não cairmos no abismo, uma visão de cortar a respiração e a sensação de ter conquistado o 3º ponto mais alto de Portugal ( continental e insular). Aqui sinto-me já cansado e a impressão que os pés não estão bem começa a afectar-me, mesmo após ter trocado de meias 2 vezes.


"Conquistado" o Pico do Arreiro ficam a faltar pouco menos de 30km, agora a descer. Parece fácil, mas não é. As bolhas que tenho na planta dos pés junto aos dedos pioram a descer. Começo a ter ser dominado pelo terrível pensamento de "isto nunca mais acaba". A ajudar a isso, estivemos de acordo em que houve etapas esticadas e por isso estávamos a fazer mais uns quilómetros extra. Na etapa final quebro definitivamente com dores nos pés, tornaram-se insuportáveis sobretudo a descer. Tenho a companhia da Esmeralda que está na mesma. Na última grande descida que além de inclinada estava cheia de obstáculos, levamos uma eternidade. Com isto atrasamos o grupo que pacientemente esperou por nós. Tínhamos ainda pela frente uma levada que circundava toda a zona Machico. Amanheceu ai, num trilho que parecia não ter fim. De repente todos tomamos consciência que estávamos em o risco de não concluir dentro do tempo limite ( que raio tínhamos entrado em todos os cut-off com larga margem e agora...). Começaram todos a correr, excepto eu, não dava mais, os meus pés escaldavam, deviam estar uns "trambolhos". A Esmeralda um pouco mais à frente, também estava em sofrimento. Os outros seguem e desaparecem depois duma descida que não lembra o diabo e que nos fazia sentar a cada passo. Dava vontade de rebolar por ali a baixo para não termos de assentar os pés nós chão. A Esmeralda trazia no rosto alguma desilusão, a prova tinha-lhe corrido bem, mas os pés traíram-na. O UTMB, o seu projecto de 2010 estava agora longe. Eu estava igual, mas talvez um pouco mais desligado da realidade. Só pensava que tinha acabado de atravessar a Madeira de lés-a-lés e que me apetecia um bom pequeno almoço inglês e um sono que não tinha há largas horas.


Bem espero que os erros não tenham sido muitos.


Parabéns aos meus companheiros de aventura mais próximos, Rui, Esmeralda, António e Angêla e também ao Duarte que nos "traiu" e fugiu na última etapa.






Abraços

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