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UM EMPENO INESPERADO E OUTRAS COISAS - REDUX

Atravesso a Sesimbra da minha meninice. A praia do "porto de abrigo" onde tanta vezes nadei até aos barcos para dar mergulhos a partir do convés,  os dias felizes passados em família "alargada", com a avó, tios e primos, a minha mãe a regatear com os pescadores as tecas de peixe fresco, o "monte dos vendavais" onde fiz campismo "selvagem" na adolescência, a "praia da califórnia" onde namorei e tantas vezes comecei a travessia anual da baía em natação (que será em Outubro e já vou na 10º edição), os mergulhos de "ano-novo", as corridas de aventura e muito, muito mais. São gratas recordações de Sesimbra enquanto atravesso a marginal junto ao mar. Sair dela é que não é nada fácil, a subida é longa e inclinada e as duas cervejolas no bucho, a falta de treino e o rabiosque que se mantêm pesado, não ajudam. Compenso-me com a paisagem, o mar azul a recortar a baía e o casario branco que ameaça cair neste, são um quase postal turístico, "Portuguese are the best lovers", oh, sorry, eu queria dizer, "Portugal is the best nature view in europe", put a crime namber faive, please :-) ( devo estar ainda a pensar na cámone com as pernas até ao pescoço).
Quase no final da subida, o "homem das cavernas" ainda habita a sua primitiva "casa" de pedra. Não sei se ainda é o mesmo que a habitava há uns anos atrás, uma coisa é certa, tem uma bela vista e não paga renda mas no inverno com os ventos dominantes a partir do mar, deve duro de suportar. 
Viro à direita na direcção das pedreiras e faço mais um excelente e conhecido trilho técnico de BTT. Perco-me junto da (ainda) quase desconhecida nascente do Coina e dou comigo num campo de gado. Felizmente a crise deve ter transformado o que lá existia em bifes e pela dimensão do que os seus intestinos processaram e que por lá deixaram generosamente para fertilizar o solo, deviam ter uns cornos afiados e algumas centenas de quilos, amén, que isto de andar a saltar arames farpados a toda a velocidade já era e eu não sou dado a toureios, embora na família haja quem tenha tentado e também não se tenha saído muito bem,  mesmo mudando o cenário para a América do Sul.
Outro deslumbramento com um trilho maravilhosamente técnico e acabo no acesso ao "trilho da fenda". Subir na direcção da estrada que vai para o portinho é que foi um calvário. Lembrei-me que há uns anos fiz a mesma asneira e as consequências foram idênticas, a pele das pernas e dos braços foi fustigada selvaticamente por tudo o que são as espécies vegetais autóctones  da Arrábida. Cheguei à estrada completamente "seco" e "riscado", amaldiçoando o "deus da estupidez", o tal que de vez em quando me aparece nestas andanças numa nuvem e com asas. Imagino que dirá: "blásfémias de um mortal que não reconhece os benefícios de ter pouco juízo". 
Sede, fome, calor. Estou como um viajante no deserto mas no meio do óasis que é a Serra da Arrábida. Penso descer ao portinho para um mergulho mas a ideia de ter de subir o seu acesso inclinado faz-me desistir da ideia. Estou já em modo "todo roto" e ainda tenho de regressar a Lisboa. Mergulhei mais adiante, na figueirinha, ui que gelo!
Outão, vale da rasca, e ai o "reforço" com mais duas bejecas e uma sandes de "paiola alentejana". Depois direcção ao vale de picheleiros e subida ( penosa) até Vila Fresca Azeitão e daí a todo o gás, Vila Nogueira, Quinta do Conde, Coina e Barreiro. Paragem na terra onde nasci há 47 anos, no tempo em havia fábricas que vomitavam toneladas gases poluentes e duas equipas de futebol na 1ª divisão.A minha mãe recebe-me com os habituais mimos, eu com mais uma "visita de médico" a pretexto de  a noite estar a aproximar-se.Depois barco para Lisboa e mais 10km até casa que somo aos 120 que já trazia marcados no ciclometro ( ou lá como se chama, a sigla GPS parece-me mais simples). Um grande dia e sobretudo, um empeno inesperado, com outras coisas à mistura, pois claro.
Abraços.

Comentários

Luis Estêvão disse…
Belo passeio... e belo relato!

Também andei pela Arrábida este fds! Estava quente!

Abraço!
Luis Estêvão disse…
Belo passeio... e belo relato!

Também andei pela Arrábida este fds! Estava quente!

Abraço!
Zen disse…
Obrigado Luis

Boas pedalas!

A Arrábida é um santuário ;-)

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