quinta-feira, julho 17, 2008

QUEM ARRISCA NÃO PETISCA – RAID DAS INVASÕES FRANCESAS – CAMP. NACIONAL DAS CA´S


Partida

Um Cp na paisagem

As primeiras viragens ( ainda o mar não tinha atingido o "pico" de fúria)

Eu a ouvir o Ricardo e a medir a altura das ondinhas

Ó Zé aperta o coletinho que te vais fazer ao mar

FOTOS: Maria Amador ATV




Prólogo

O tempo de intervalo entre a última prova da Taça na Serra da Freita e esta não foi o mais desejável para que se mantenha alguma “homogeneidade competitiva” nas equipas que participam nas CA´s, digo eu. Foram 3 meses de intervalo, nos quais o corpo e sobretudo a mente se esqueceram das exigências do que é preparar e participar numa prova desta natureza. Apesar disso, os treinos da equipa foram regulares e até melhorámos alguns desempenhos "mais técnicos" o que fez com que chegássemos à véspera da prova com acima de 1 milhar de quilómetros de corrida, caminhada, BTT e canoagem no corpo. Arriscaria até dizer, que para esta prova estávamos globalmente mais bem preparados do que em todas as que havíamos feito até então.
Partimos para o 1º Campeonato de Corridas de Aventura sob a égide da FPO em Torres Vedras, com a moral em alta e com o estatuto de “elegíveis” ao pódio, fruto da boa condição demonstrada nas provas anteriores que resultaram em vitórias nas duas últimas competições. A ajudar a soprar esta vela de confiança, tivemos ainda como presente uns bonitos equipamentos oferecidos pelo patrocinador e um tardio mas reconfortante jantar no Bombarral. Tudo corria às mil maravilhas, augurando-se para o dia seguinte um fantástico dia de aventura ( e foi-o sem dúvida) e sucesso competitivo. Secretariado, estender o saco-de-cama no pavilhão municipal de T. Vedras e sonhar ainda um pouco acordado com o desafio que se seguiria completou este dia.

1º dia

Preparar logo de manhã a bicicleta, os equipamentos e os abastecimentos são tarefas que requerem concentração. Temos de fazer uma antevisão do que vai ser a prova através do “raidbook” para que possamos ter o que vai ser necessário durante as etapas. Isto porque se seguirá um “carrossel” de cerca de 14hrs, nas quais os tempos de transição devem ser mínimos. Vestir, comer, hidratar, colocar materiais obrigatórios para cada etapa, lubrificar e ver o estado geral das bicicletas é decisivo para um bom resultado final. Nesta fase além dos atletas é fundamental o papel da assistência e nesta estávamos bem servidos com a experiente Ângela.
A 1ª etapa era uma pedestre circular e tinha como limite 3hrs, 12Cps (alguns A e B, sendo validados o conjunto) e 21km de distância máxima (feitos pela melhor opção). Após a partida, reparei que T. Vedras é circundada de montes e que a maioria dos Cps se situavam nas cotas mais altas, os restantes estavam dispersos na cidade. Mantivemos a equipa em bloco e a etapa correu-nos bem com 11 cps feitos que nos colocou no 2º lugar ( a super equipa dos Praças da Armada fez os 12). Partimos para o BTT ( 14 Cps+ 1 chegada, 50km melhor opção e 4.15 de limite) confiantes. Nada fazia prever que alguma desconcertação nos afectaria e que dai resultaria alguma ansiedade que se manteve durante toda esta etapa. Até o facto de não ter deixado o tempo suficiente o sportident numa estação que ainda não tinha sido “acordada”, fez com que nos fosse descontado um CP (devo ter sido o 1º a por o sporid e com a pressa de seguir nem ouvi a estação apitar). Fizemos 10Cps, quando seria natural termos feito muitos mais ( pela qualidade do navegador e boa condição física de todos) e passamos da 2ª posição para a 4ª.
Mais uma pedestre se seguiu ( 8+1 cps, 18kms para 2.45hrs) com pontos a picar em grutas e uma escalada com uma via grau 5 ( aqui só o António é que dá cartas) que acabava na praia de Porto Novo onde começaria a etapa de canoagem. Fizemos 6 Cps e recuperámos uma posição (3º) a um cp do 2º e a já sete do 1º que demonstrava ser claramente a equipa mais forte ( o seu 2º lugar na prova internacional do Estoril XPD diz tudo). Não foi uma boa etapa, mas também não foi má. Acusámos alguma “ressaca” da anterior e o capitão da equipa achou que iríamos recuperar na canoagem onde já demonstramos ser uma equipa forte. Até aqui, apesar das diferentes contrariedades o António, a Esmeralda e eu, estávamos bem fisicamente apesar de um pouco beliscados psicologicamente pela etapa de BTT, seguia-se portanto a etapa que julgávamos decisiva, a canoagem.
A nortada dos últimos dias no Barreiro durante os treinos para a prova, já tinha produzido os seus resultados num treino de canoagem no Tejo no qual tive de ser resgatado pela PM agarrado a uma bóia de sinalização com o Kayak a ameaçar desaparecer para sempre no traiçoeiro “mar da palha”. Juntou-se a esta história para “contar aos netos” uma outra, a de pela 1ª vez ter visto os “roazes corvineiros”( para quem não sabe são uma espécie de golfinhos que habitam os estuários do Tejo e Sado) no “meu” Tejo. Só os “avistara” na minha imaginação através daquilo que o meu pai me contara de que antigamente estes quase míticos seres passeavam no rio à vista dos homens antes da horrível poluição das últimas 4 décadas que destruíram a rica fauna desta zona do Tejo. Pertenciam pois os golfinhos aos meu sonhos de meninice, quando graças à nortada, ao naufrágio, às vistas de uma lancha da PM e ao olhar sagaz do meu irmão, estas fantasias se tornaram realidade, bendito dia!
Mas os bons ventos misturam-se alternadamente com os maus. Os da Praia da Aberta apesar de amenizarem o dia, sopravam demasiado fortes tornando o mar demasiado “enrugado” para o meu gosto e para uma eficaz circum navegação Esta etapa tinha 10Cps ( 4 duplos e 2 singles) e premiava os remadores que ao fazerem os CPs mais distantes a sul e a norte escusavam de fazer os intermédios. Dava também 1 Cp de bonificação às equipas que trocassem de elemento no retorno dos CP´s a sul. Fiz-me ao mar na companhia do António com muita convicção em melhorar a classificação, mas com pouca vocação para marinheiro de água salgada. As ondas eram enormes, a costa mal se avistava e o vento parecia aumentar de velocidade a cada “pagaiada”. Eu amaldiçoava com impropérios a canoa por não ter um encosto de costas decente, o que tornava a remada penosa, a meteorologia e a técnica que teimo em não aprender. Desta forma lá fomos progredindo no mar revolto até perto do 2º CP ( aprox. 7km a sul) a sul virando apenas uma vez ( digo apenas porque a grande maioria das equipas passou muito tempo a subir para a canoa), na qual o meu irmão diz que eu parecia um gato na água fria a tentar agarrar-se desesperadamente a um barco a 500mts da costa. Após esta peripécia, seguiu-se o aviso dos SAN de que a etapa teria sido anulada, as condições do mar não ofereciam segurança, "só agora?" repetimos em coro. De facto este aspecto deveria ter sido acautelado pela organização antes de algumas equipas entrarem na água, poupava-se algumas consequências que só não foram mais desastrosas ( apesar de resgates, ferimentos ligeiros e quase hipotermias) pela experiência da grande maioria deste pelotão de aventureiros. O vento estava agora ainda mais forte e as ondas, autênticas paredes de água que ameaçavam virar a nossa insubmersível casca de noz a todo o momento. Foi o que aconteceu na aproximação à praia e a cerca de 100 mts desta, fomos completamente engolidos por uma destas belas mas assustadoras expressões da natureza. Digo engolidos porque a última coisa que me lembro antes de mergulhar numa espécie de máquina de lavar, filme riscado, momento metafísico, sei lá, foi sentir a canoa a dobrar-se sobre mim com uma violência e rapidez incríveis como se uma boca de água nos fosse tragar. Quando emergi, depois dos tais momentos quase surreais nos quais me ocorreu debaixo de água ( sem basófia, digo com uma certa tranquilidade) a ideia de que este podia ser o último instante da minha existência, vi que estava já junto da praia e apesar de não ter pé não foi difícil alcançá-lo, mesmo levando incessantemente com as ondas em cima. Vi o meu irmão mais á frente a recolher os destroços do “naufrágio” e pensei, “porreiro safamo-nos desta, venha a próxima” . Pela ideia que tinha da nossa anterior posição tínhamos sido arrastados durante muitos metros. Eu, triatleta ironman, nadador de travessias de Tejo com corrente danadas que quase me levavam do padrão dos descobrimentos a Algés, canoista ocasional e afins marítimos, nunca me tinha visto em tal situação o que me levou a pensar e a simplificar esta ocasião: “ tens falta de treino meu”! Já em terra firme tento reconstruir o momento com o meu irmão que me diz que no momento da viragem lhe parecia estar a cair de um 2º andar comigo no RC/chão. Ele foi projectado (dai que tenha aparecido mais à frente) e eu levei com a parede de água e com o barco em cima. O resultado, foi um golpe fundo no queixo, dores no couro cabeludo e perder os meus óculos e o buff de estimação, mas o mais grave foi perdermos todos os hipotéticos Cps que podíamos ter conquistado, pois a anulação da prova não beneficiou os corajosos que se haviam feito ao mar, apenas os bonificaram com um tempo que não compensou o seu esforço e risco. Tínhamos portanto perdido a oportunidade de subirmos na classificação o que seria uma realidade se nos compensassem com os 4 Cps feitos, até à situação quase-trágico-marítima.

( continua)

1 comentário:

Fernando Andrade. disse...

Afoito, fez-se ao mar cortando a espuma
Numa frágil canoa, navegando.
Lá se ajeita, remando, enquanto ruma
À praia onde alguém está aguardando.
Quando uma onda revolta se avoluma
E a embarcação se foi virando.
Restava ao Zen e amigos vir nado;
Pois que viram o caso “mal parado”.

Depois deste naufrágio e brava luta
Contra as águas, conseguem salvação;
Quando o arauto chegou, põem-se à escuta
E souberam da nova decisão.
Apeteceu-lhes chamar “filhos da p…”
Pois p’ra eles, assim, não há perdão :
Cancelaram a etapa e sua esperança
Dizem que por razões de segurança!

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