sábado, novembro 03, 2012

ECOVIA DO ALGARVE - PARTE III

Depois de Armação Pêra, tive mais uma vez dificuldade em acertar com a rota da "Ecovia" porque esta aparecia e desaparecia e sempre em estradas com demasiado trânsito. Quem me manda não ter um GPS ou um mapa mais pormenorizado?! Por estes e pelos motivos que tenho vindo contar, fartei-me de "andar às cascas" nesta travessia do Algarve litoral e decidi apontar definitivamente para junto do mar. Desci, primeiro por estrada alcatroada depois por terra batida e dei com esta praia deserta. Achei que isso seria impossível no Algarve, ainda por cima aqui, onde há mais turistas e menos espaço para banhos. A visão do mar, o sossego do final da tarde e o cansaço fez-me ter vontade de dar um mergulho como se fosse um troglodita feliz fundido com a natureza, ou o livre ( acho que me percebem) Adão antes de se preocupar em alimentar o estômago, mas a hora já era tardia e eu tinha de estar em Portimão a horas decentes de apanhar o comboio de volta para Tavira onde iria pernoitar. O problema foi sair dali, pois tive de carregar a bicicleta um bom bocado às costas por um trilho marcado como PR. Cá em cima pude finalmente ir apreciado o conjunto de praias recortadas em rocha, trilhos mais "técnicos" e cheiro a natureza ( aquele cheirinho algarvio único no universo), "finalmente BTT"!

Mais uma praia deserta... Antes de Adão tratar do estômago, conheceu Eva, provavelmente num sítio destes.

A erosão tem os seus caprichos.
A erosão tem aqui os seus caprichos II

Que final de tarde!
Gaivotas em terra nem sempre significam tempestade no mar. Provavelmente fazia o mesmo que eu, contemplava...
Antes de chegar ao Carvoeiro o sol pôs-se para os lados da Serra de Monchique.
Passo pelo Carvoeiro depois por Lagoa e já é de noite. Não tenho luzes, nem vejo grande coisa. Acelero pela berma da N125 na direcção de Portimão, os carros encandeiam-me em sentido contrário, ainda por cima há obras que me obrigam a ter muito cuidado. Sei que a ciclovia passava por Ferragudo e atravessava a ponte antiga de Portimão. Mas tenho de optar por este lado que fica mais próximo da estação. Achei que se chegasse antes das 22hrs teria comboio de regresso, puro engano, quando chego a estação já está fechada, o último passara próximo das 19hrs. Janto numa tasca em frente da estação de comboios, estava morto de fome. Depois, procurei sítio para pernoitar em Portimão, terra onde em 1973 passei pela primeira vez férias no Algarve, desde ai a transformação foi profunda. Não foi difícil encontrar cama, mesmo sem lençóis, nem tomar um banho retemperador sem sabão e toalha. Quanto à roupa, tinha uns calções e uma camisola na mochila que troquei para dar um salto com sapatos de ciclismo à Praia da Rocha onde comprei uns  "confortáveis" chinelos em saldo e bebi mais uma "bejeca" fresquinha ( que grande beberrolas:-).
Adormeci profundamente e acordo de madrugada com o barulho das muitas gaivotas sobre a cidade, são 6hrs. Penso se vale a pena seguir viagem até Sagres correndo o mesmo risco de não chegar a horas de apanhar o comboio de volta para a minha casa em Tavira. Sei que ainda me faltavam aproximadamente 80km até ao Cabo mais a sul da Europa mais o retorno para Lagos, o que feitas as contas seriam para ai uns 120km. Conclui: "tenho tempo, volto ainda esta semana para fazer o resto, agora estou cansado". Não voltei nessa semana, mas voltarei em breve. Apesar do desencanto com a Ecovia do Algarve, o prazer de viajar de bicicleta superou a desilusão de um traçado que não é uma verdadeira mobilidade alternativa, só a espaços.
Apanho o primeiro comboio para Faro onde tomo o pequeno almoço já com o familiar cheiro da eterna Ria Formosa. A cidade de manhã é encantadora!

Estação de Portimão.
Ao chegar a casa, o meu vizinho algarvio oferece-me umas amêijoas que apanhara de manhã na ria. Preparo-as ao jantar com esparguete enquanto abro um tinto alentejano. Ponho depois a mesa no quintal e acendo uma vela para criar ambiente no lusco-fusco algarvio. De barriga cheia as recordações do dia anterior tornavam-se agora mais nítidas e a cabeça enche-se de novos projectos de liberdade.

1 comentário:

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Pequena Grande aventura Neves! E disso se alimenta a alma, certamente saciada quado te atiras às ameijoas que depois dessa pequena Grande aventura te devem ter sabido pela vida!

Arquivo do blogue