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OS CAMINHOS FAZEM-SE CAMINHANDO


Contava a minha avó, que eu era o neto mais difícil de todos. Sei que entre outras tropelias que faziam o  meu "cadastro", ao qual a minha mãe ia dando substância e que duraram até à adolescência, altura em que faleceu, estavam as suas bem intencionadas mas infrutíferas tentativas de me tornar num bom cristão com idas dominicais à missa. Momento beatífico que depressa se transformava num rol de queixas e repreensões porque eu, na irreverência da minha meninice e perante a vista do espaço, fugia a sete pés, como um "diabo foge da cruz". A velhota guardou até ao fim dos seus dias a memória desses dias em que não podia rezar o terço sossegada por causa de um neto que se recusava a ser pio e sei que partiu um bocado zangada comigo. 
Nunca fui bom, nem mau cristão, nem crente nem descrente. Para mim "a verdade libertadora" é um ponto de vista humano e gosto agora de igrejas pela sua monumentalidade, frescura no verão e cheiro a incenso. Tenho igualmente pelas religiões a curiosidade de perceber como estruturam a existência dos crentes, como contribuem para a "produção de sociedade", como dão "substância" à eterna demanda  pela universalidade humana. 
Bem, este paleio todo para dizer que para o mês que vem vou a Fátima de bicicleta com uns colegas de profissão, esses sim, integrados numa missão salvadora, razão da sua fé peregrina. Eu, que até já fui a Santiago de Compostela a partir de Ponte de Lima mas a correr, vou fazer mais um caminho mítico, agora pedalando. Se a minha avó soubesse, talvez me levasse a comer um gelado antes de irmos à missa.

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