Avançar para o conteúdo principal

[O Homem da Maratona] PASSEIO NOCTURNO ( Parte II) - 2006

Posted by Zen to O Homem da Maratona at 10/21/2006 01:52:00 



A Serra do Louro é uma espécie de “varanda” com vistas “largas” para a península de Setúbal do Tejo até ao Sado. De noite, temos uma ideia mais aproximada da densidade da ocupação humana na região pela quantidade de pontinhos luminosos que são as luzes das casas e fábricas que não param de aumentar neste últimos anos. Apenas a Oeste avisto uma escuridão tranquilizadora que corresponde às matas da Apostiça e Sesimbra, mas também estas prontas num futuro próximo a converterem-se ao luzeiro. Não que tenha nada contra a palavra e conceito de “progresso”, apenas contra aquilo a que se chama “progresso” e que tem provocado feridas insaráveis neste espaço natural.
Tentei explicar esta ideia aos participantes à medida que caminhávamos e olhávamos em redor. Junto às povoações do “ Castro de Chibanes” e “ Alta da Queimada”, transportei os meus companheiros para o passado, fazendo-os imaginar a vida destas comunidades numa noite sem pontinhos luminosos no horizonte, apenas uma noite escura com uma vastidão que se imagina porque se vê de dia e ruídos da natureza, o vento, o rumor dos ramos das árvores no vale o piar de um mocho, o uivo de um lobo, talvez, quem sabe… Mais acima no trilho os moinhos que se reconstroem depois de algumas décadas de abandono, sinal de cultura e interesse de algumas gentes que percebem que o nosso futuro depende da identificação que temos do passado.
Chegamos ao ponto de retorno e digo: “ bem, agora vamos voltar para trás, não pelo mesmo caminho, mas na direcção aonde deixamos os carros”, sou surpreendido com um coro de amigáveis protestos de recusa. Decido improvisar o percurso, vou até ao ponto de intersecção da Serra do Louro com a de S. Francisco, viro na direcção ao vale dos barris por um trilho a meia encosta, mas que vai descendo até este vale, mais à frente subo a famosa "descida da burra”(desta vez convertida em subida) até ao alto da Serra do Louro novamente onde aguardo para ver menos sorrisos e mais máscaras de esforço daqueles que estavam mais atrasados. Não me enganei… afinal já estávamos a caminhar há quase 3hrs e o cansaço começava a notar-se, sobretudo em alguns (poucos) menos habituados a estas andanças. Caminho de retorno, pão quente no final, acabado de sair do forno de padaria serrana (pão fantástico este) que saboreamos junto aos carros com um queijo que alguém oportunamente comprara nessa tarde para fazer umas sandes lá em “casa” e que tão bem soube ao ar livre… ah e condimentado com uma chuva que finalmente cumpria a sua ameaça.
Nas despedidas, exigência que a próxima caminhada seja para breve e projectos de idas a “Gredos”, “Picos da Europa”...com a Claúdia a perguntar-me: “ Zé e porque não vamos todos ao Nepal ver o Annapurna ao nascer do sol?!” “Mas eu já lá estive hoje!” Respondi. Ela com uma expressão incrédula que eu desfaço: "é que para mim as tuas palavras valeram mil imagens”.


--
Posted by Zen to O Homem da Maratona at 10/21/2006 01:52:00 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

MEMÓRIAS DA SERRA DA CARREGUEIRA

( Legendo só a última fotografia - este era um tanque de água próximo do quartel onde vínhamos tomar banho no verão na esperança de vermos também umas miúdas que por lá apareciam de vez em quando)

Por vezes basta uma palavra, um encontro com uma pessoa ou o regresso a um lugar, para que a memória se abra como um livro e revele parte da história da nossa vida que afinal, ao contrário do pensamos, ainda está bem viva em nós. Foi o que me aconteceu esta semana com o convite do Luis Miguel para um treino na Serra da Carregueira - Sintra, local onde há 27 anos atrás, estive às ordens do Estado pelo período de 16 meses a cumprir o então "serviço militar obrigatório". Chamava-se na altura "Regimento de Infantaria nº 1", que incluía um dos chamados "Batalhões operacionais de primeira linha" do Exército português, o que significava, homens prontos para uma eventual intervenção militar imediata, isto apesar da guerra colonial ter acabado na altura havia 12 anos e …

A VIDA O AMOR E OS... TRILHOS

Pois é, o "Trilhos Míticos" está de volta. A vida neste tempo em que estive ausente deu as suas "voltas", os "amores" também mas os trilhos continuaram a percorrer-se, agora também de mota como podem ver nas imagens. Ficará por contar aqui as minhas voltas entre a Suiça, Áustria e Alemanha, durante o último ano e meio, a referência aos seus bonitos trilhos de montanha e lagos onde me fundi de corpo e alma ( e por lá deixei parte deste/a).  Durante muitos anos o Trilhos Míticos foi essencialmente o espaço aonde escrevia acerca das minhas aventuras desportivas, que não podendo-do recuperar as muitas histórias que tenho destas desde o inicio dos anos 90, falava das que vivia na "actualidade" e foram muitas! Mas isso mudou desde há dois anos num processo que se adivinhava há muitos mais. Como a vida é dinâmica e este blogue também, este passará a incluir todos os trilhos percorridos por mim, seja a pé, a nadar, de bicicleta, de mota, de canoa e ago…

NÃO HÁ ALMOÇOS GRÁTIS

Finisher na Maratona de Lisboa 2007
(Fotodesporto)
Depois de duas consultas no CMD ( Centro de Medicina Desportiva) com RX´s e ressonâncias na mão e algumas horas de espera, sou recambiado para uma consulta no Hospital da Cuf com o argumento de que o meu problema era "complexo". Habituado às "complexidades" da vida e sobretudo a perceber como estas alimentam as diferenças de poder e "afirmam" crenças, neste caso de que todas as opiniões médicas são prescritivas ( entre outras opiniões de "especialistas"), pensei, "já vou ficar a arder com mais uns tostões". Mas fui, não fujo ao grupo dos "crentes", mesmo que tenha consciência dos dogmas de uma ciência quase transformada em religião, e confesso que os referidos especialistas são para mim ( e para mais) uma espécie de pastores evangélicos que nos libertam sempre um "aleluia", afinal, algo existe além desta enfadonha ignorância quotidiana na qual a maioria de nós chaf…