Avançar para o conteúdo principal

TRAIL DA LOUSÃ - O REGRESSO À SERRA



E lá fui eu mais uma vez para a liberdade das serras portuguesas, desta vez para fazer o "Trail da Lousã", a versão "curta" de 45km de uma prova maior da AX Trail Series, o UTAX ( 88km). A realização deste evento foi da autoria do conhecido Fernando Pinto, um antigo corredor de aventura ( e não só) e da sua empresa de eventos desportivos, a Go Outdoor, que labora tendo como palco privilegiado as serras e rios do "Maciço Central", explorando actividades que vão da organização de eventos desportivos competitivos, até passeios na serra, descidas de rio, entre outras actividades em natureza. Da sua experiência resultou, como não podia deixar de ser, uma excelente organização de Trail da qual espero beneficiar durante muito tempo.

Salto os pormenores e tento condensar a história desta demanda serrana.

Três anos depois da última prova a sério e com três meses de treino (i) regular, aqui estou, junto de um pórtico de partida montado em Castanheira de Pêra, no meio de mais de 250 homens e mulheres "vestidos a rigor" como eu, prontos para vencermos 45km de serra ensopada pela chuva dos dias anteriores e aproximadamente 2500 desnível positivo. Para certificar isso, havia três abastecimentos e três postos de controlo, todos situados nas belíssimas aldeias históricas de Xisto da Lousã.


Partida! Que serra, que trilhos, que tamanha beleza a 1h30 de carro a partir de Lisboa!

Penso: vida desperdiçada em coisas inúteis se as ocasiões para ser feliz ( na dimensão justa da minha felicidade comungada),estão "logo ali", simples, basta a força de querer, basta a vontade de fazer uma "limpeza do lixo mental" que acumulamos distraídos em "estilos de vida" que nos poluem com o acessório, com o trivial, o material e nos tornam, egoístas, insensíveis aos outros e ao meio, esquecidos do fantástico milagre que é a vida e da oportunidade que é poder vivê-la em liberdade! 

Nevoeiro, castanheiros, ribeiros, cascatas, aldeias de xisto, umas abandonadas outras revitalizadas, pedras escorregadias, afiadas, pássaros, cheiros, verde, vistas... "A paisagem não tem dono"!

Na fotografia acima estava no primeiro posto de abastecimento na aldeia de Xisto do Talasnal ao km 18 e ainda sorria. Seguiu-se um dos troços mais bonitos da serra até à aldeia de Candal, percorrido a meia encosta, subindo gradualmente sempre ao lado de uma levada, um trilho com um pé no precipício em que escorregar ou aumentar a velocidade seria um mergulho garantido no vazio. Ser pássaro por segundos pareceu-me uma ideia fantástica, mas continuo a preferir a condição de homem, apesar dos acasos.

O Abastecimento seguinte seria na aldeia de Xisto da Cerdeira, ao Km 23, seguia-se o resto da "parede" que já havíamos começado até ao alto da Lousã ( 1205mts) e uma vista de encher a alma de poesia ao "amor pátrio", este espaço de subjectividades que nos pertence e ao qual pertencemos, geográfica e culturalmente e que devemos preservar e defender com unhas e dentes das ganâncias e nepotismos de aquém e além. Que país bonito este onde nasci.

"Tudo o que sobe desce", Newton mostrou-me parte da teoria da gravidade através de caminhos de pedra rolada quase a pique, primeiro largos, depois trilhos de pastores transformados em ribeiras pela chuva e que fizeram das minhas pernas a conclusão daquilo que todo o percurso já fizera até ali, objectos estranhos sem comando e nas extremidades dois pés torturados pelas pedras, dentro e fora dos ténis. 

A partir da aldeia do Coentral, o último abastecimento aos 33km, estendia-se um longo tapete até à meta, mas este já parecia ficção, qualquer pequena subida mesmo em estrada, era uma conquista do Evereste e a meta parecia estar "fim do mundo"! Mas cheguei lá ( ao fim do mundo) e não vi monstro nenhum. Vi sorrisos e palavras de "parabéns", cumprimentos e até uma inesperada entrevista em que só me lembro de repetir, "lindo, "lindo", lindo".

Hoje ( domingo), acordei com se tivesse levado porrada de um bando de malfeitores, "estou todo partido"! Porem feliz por este regresso, aos treinos, ao convívio, aos grandes espaços naturais, aos desafios físicos e técnicos, de que tanto gosto e que contrariam, pelo prazer que é viver desfrutando destes prazeres simples, a existência sórdida, incerta e mortificante de cidadão neste país nos tempos que correm.

Classificação 104º da Geral entre 207 "finishers" com 6h34.

Até breve!


Comentários

Mensagens populares deste blogue

MEMÓRIAS DA SERRA DA CARREGUEIRA

( Legendo só a última fotografia - este era um tanque de água próximo do quartel onde vínhamos tomar banho no verão na esperança de vermos também umas miúdas que por lá apareciam de vez em quando)

Por vezes basta uma palavra, um encontro com uma pessoa ou o regresso a um lugar, para que a memória se abra como um livro e revele parte da história da nossa vida que afinal, ao contrário do pensamos, ainda está bem viva em nós. Foi o que me aconteceu esta semana com o convite do Luis Miguel para um treino na Serra da Carregueira - Sintra, local onde há 27 anos atrás, estive às ordens do Estado pelo período de 16 meses a cumprir o então "serviço militar obrigatório". Chamava-se na altura "Regimento de Infantaria nº 1", que incluía um dos chamados "Batalhões operacionais de primeira linha" do Exército português, o que significava, homens prontos para uma eventual intervenção militar imediata, isto apesar da guerra colonial ter acabado na altura havia 12 anos e …

NÃO HÁ ALMOÇOS GRÁTIS

Finisher na Maratona de Lisboa 2007
(Fotodesporto)
Depois de duas consultas no CMD ( Centro de Medicina Desportiva) com RX´s e ressonâncias na mão e algumas horas de espera, sou recambiado para uma consulta no Hospital da Cuf com o argumento de que o meu problema era "complexo". Habituado às "complexidades" da vida e sobretudo a perceber como estas alimentam as diferenças de poder e "afirmam" crenças, neste caso de que todas as opiniões médicas são prescritivas ( entre outras opiniões de "especialistas"), pensei, "já vou ficar a arder com mais uns tostões". Mas fui, não fujo ao grupo dos "crentes", mesmo que tenha consciência dos dogmas de uma ciência quase transformada em religião, e confesso que os referidos especialistas são para mim ( e para mais) uma espécie de pastores evangélicos que nos libertam sempre um "aleluia", afinal, algo existe além desta enfadonha ignorância quotidiana na qual a maioria de nós chaf…

SE CÁ NEVASSE FAZIA-SE CÁ SKI

Zé Neves a fazer SKU desde 2010 (sempre a descer)!

Salada de frutas - Se cá nevasse fazia-se cá ski
"Sebastião cá voltasse
Se a moleza se cansasse
Se o Eusébio 'inda jogasse
Ai que fintas que ele faria um dia...
Se o imposto não subisse
Se o emprego não fugisse
Se o presidente sorrisse
Outro galo cantaria um dia...
Se cá nevasse fazia-se cá ski...
Se cá nevasse fazia-se cá ski...
Se cá nevasse fazia-se...fazia-se...

Há sempre um "se" no caminho
Que me deixa as mãos tão presas
Se eu cortasse o "se" daninho
Talvez me livrasse das incertezas...
Se cá nevasse fazia-se cá ski...
Se cá nevasse fazia-se cá ski...
Se cá nevasse fazia-se...fazia-se..."