quinta-feira, dezembro 12, 2013

[O Homem da Maratona] AS CIDADES SÃO... 2006

Posted By Zen to O Homem da Maratona at 12/14/2006 05:15:00 PM






A Professora e Arquitecta Maria de Celeste Ramos  é uma velha senhora de ar excêntrico que um destes dias apareceu na faculdade convidada por um outro professor para nos dar uma aula sobre os " os territórios naturais das cidades". A sua pergunta inicial para a plateia foi: " o que são as cidades"? O grupo, sobretudo constituído na sua maioria por jovens ( no qual eu sou excepção), emudeceu.  " As cidades são as pessoas!”, respondeu alegremente, quebrando um silêncio que para mim já começava a ser incómodo e que me punha na eminência de soltar um disparate. Depois de sabermos que "somos a cidade", a cativante oradora, esteve duas horas a falar da importância das árvores nas cidades e da forma como elas contribuem para perspectivar o espaço urbano, das plantas que encontrou no "nosso" mal tratado jardim da faculdade", do Sol na cidade coado pelas árvores e plantas, do calendário Maia e um sem numero de assuntos que eu considerei preciosidades mas a maioria, uma "seca". Mas a frase, "a cidade são as pessoas" martelou-me o espírito durante estes últimos dias. Ontem nos meus raros treinos urbanos nocturnos, lembrei-me dela novamente ao tentar atravessar uma pequena praia de areia branca da minha infância, a praia privada da "Quinta do Alemão" ( um estrangeiro, industrial da cortiça do inicio do séc XX), hoje aterrada para fazer um moderno "Projecto Polis". Durante a travessia os meus ténis ficaram atolados na lama e ao recuar para tentar libertar-me, tropecei num ferro, cai, desamparado ganindo de dor ao mesmo tempo que berrava uns impropérios contra os filhos de mães rameiras que o tinham lá deixado. Recomposto e na solidão da noite olhei atentamente e em desespero a paisagem onde outrora existiam coisas concretas na minha infância e hoje sobram apenas destroços e muitas memórias. Uma delas, a da "caldeira do alemão" a dois passos dali e onde os putos como eu há 40 anos mergulhavam em acrobacias e quando vazava apanhavam berbigão graúdo. Atrás mim ainda sobram as ruínas de uma fábrica de cortiça ( sempre a conheci assim) e uma outra caldeira que já não recordo o nome e onde íamos às enguias com pedaços de tubo e que vi , ainda na minha juventude, ser aterrada para fazer um campo de futebol. A longo desta, a muralha ( ainda existente), onde atracavam as fragatas carregadas ou vazias das trocas que se faziam nas margens do Tejo. Atracado a estas o bote do bom Ti João Fragateiro, pronto para nos levar por este rio salgado acima e abaixo ao sabor da corrente conforme a maré enchia e vazava, atirando-nos para ela para nos ensinar a nadar mas sempre sem dizer " ó rapaz agarra-te ao remo se estiveres em aflição". A muralha foi também o local onde primo do Chico ( que uma overdose de heroína tratou de levar do mundo dos vivos faz há pouco), morreu afogado depois de um mergulho mais arrojado e a imagem que guardo da tragédia ao ver o seu corpo franzino de 11 anos tapado por um plástico deitado entre as salgadeiras e os restos de ostras próximo desta praia onde agora ainda estou caído. Ao largo a malha dos cercos plantada no lodo e um “enxame” de putos enlameados a apanhar savelhas, enguias, tainhas, robalos e outros peixes que os donos da "arte" deixavam para trás. A pedra aonde nos sentávamos para lançar o “carrapichel” com uma cabeça de peixe-espada lá dentro para apanhar caranguejos que cozíamos na rua numa fogueira improvisada, ainda lá está, não chegou a sua vez de ser "devorada" pela ferocidade da "modernidade".
"As cidades são as pessoas"... continuo a correr, entro no areia húmida deixada pela maré vazia da "Praia da Copacabana" onde tantas vezes nadei e também namorei, corro 600 metros até ao pontão da "seca do bacalhau", "o melhor sítio para apanhar lamejinhas" e regresso, olho na outra margem a Siderurgia onde o alto forno a vazar já não liberta como antes os urros do ferro quente a arrefecer nas calhas e moldes, vejo o meu belo Tejo espelhado na noite por muitas luzes que o rodeiam e lá ao fundo, Lisboa como uma espécie de cidade prometida. Faço 1 hora de corrida neste cenário que vou recompondo, ligando o passado ao presente para que a vida faça sentido e regresso a casa passando pela "Telha Velha", uma pequena localidade agora com os edifícios arruinados, casas vazias entaipadas, mas que já teve correios, mercearia, taberna e um largo cheio de pessoas, muitas velhotas de lenço negro e onde um rapaz deficiente mental me impressionava porque batia repetidamente as costas e a cabeça contra uma parede ( por vezes punham-lhe um capacete). Cruzo o que resta de campos de cultivo, quintas com oliveiras e árvores de fruto abandonadas, e pequenas matas de pinheiros e sobreiros, agora esmagados por prédios de gosto duvidoso e hipermercados que vendem fruta do Chile e bugigangas da China. Corro depressa para chegar à casa da minha Mãe antes de ir para a minha e perguntar-lhe numa mágoa mal disfarçada: “Mãe as cidades são as pessoas, não são?”

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Posted By Zen to O Homem da Maratona at 12/14/2006 05:15:00 PM

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